sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Atividades sobre o Conto de Escola, de Machado de Assis. Edna Domenica Merola

Conto de Escola de Machado de Assis. Disponível em Domínio Público 
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000268.pdf

Estrutura narrativa do Conto de Escola

APRESENTAÇÃO
A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant'Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.
Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.
Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinquenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.

COMPLICAÇÃO
‒ Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinquenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.
‒ O que é que você quer?
‒ Logo, respondeu ele com voz trêmula.
Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
‒ Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
‒ Não diga isso, murmurou ele.
Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.
‒ Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
‒ Que é?
‒ Você...
‒ Você quê?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.
Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...
‒ De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
‒ Então agora...
‒ Papai está olhando.
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as ideias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, dependurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.
No fim de algum tempo - dez ou doze minutos - Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
‒ Sabe o que tenho aqui?
‒ Não.
‒ Uma pratinha que mamãe me deu.
‒ Hoje?
‒ Não, no outro dia, quando fiz anos...
‒ Pratinha de verdade?
‒ De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.
‒ Mas então você fica sem ela?
‒ Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?
Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...
Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma ideia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, ‒ e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, ‒ parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...
Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. - Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...
‒ Tome, tome...
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e - tanto se ilude a vontade! - não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.
‒ Dê cá...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.
‒ Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
‒ Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.


‒ Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.
Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.
‒ Venha cá! bradou o mestre.
Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.
‒ Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.
‒ Eu...
‒ Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.
Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.
‒ Perdão, seu mestre... solucei eu.
‒ Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
‒ Mas, seu mestre...
‒ Olhe que é pior!
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.
Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma coisa?
‒ Tu me pagas! tão duro como osso! dizia eu comigo.

DESFECHO
Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.
Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...
De manhã, acordei cedo. A ideia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...

Memórias de Lucíola. In Memórias Compartilhadas. MEROLA e outros. Postmix. 2017. pp 63,64.
Carta em referência ao Conto de Escola de Machado de Assis
Autores: André Wendhausen Pereira Filho e Edna Domênica Merola.

Florianópolis, 06 de Abril de 2017.
Querido neto,

Eu gosto muito de recordar o passado e hoje amanheci me lembrando da minha primeira escola.
Era uma construção nova, muito limpa e bastante aconchegante.
O fato que vou lhe contar ocorreu em 1950. Era na metade da semana e parei na Praça Getúlio Vargas onde havia um coreto. Não era uma construção grandiosa, mas a sua arquitetura combinava com o verde, com os bancos e as flores existentes naquela época.
No dia seguinte, a banda municipal iria tocar no coreto pela manhã.
Fiquei em dúvida se iria ouvi-la ou iria à escola, era um dilema.
Resolvi que iria para escola, pois na semana passada havia feito duas brincadeiras na sala de aula que meu pai não gostara e levei um baita raspão.
Deixei de ouvir música para não desgostar meu pai e cumprir com meu dever.
Mas o tempo gasto na resolução do dilema fez com que eu chegasse atrasado. A professora deu ciência do fato para a minha irmã Lucíola (sua tia avó) que era a primeira da classe em comportamento.
Para que ela não me delatasse, tive de engraxar os sapatos dela durante quinze dias.
Mas até hoje fico imaginando como teria sido ouvir a banda e perguntar, depois da apresentação, como, um dia, eu poderia vir a tocar um instrumento como um daqueles músicos.
Quem sabe uma vez descoberto pelo meu pai, nessa escapulida, depois do castigo, pudesse tentar convencê-lo a me deixar estudar música?
Após a indagação, a certeza de que não conseguiria convencer meu pai a mudar de ideia volta com força. Pois eram outros tempos e outras as relações entre pais e filhos.
Por isso lhe peço que não se distancie de seu pai e que conserve a amizade e o diálogo que mantêm até hoje. Sei que já está deixando de ser criança e se tornando um adolescente. Mas lhe peço que não se afaste dele, nunca.

Com afeto, teu avô João.


ATIVIDADES SOBRE PERSONAGENS

Personagens
Descrição
Atitude
Valores
Pilar
era dos mais adiantados da escola; [...] era dos mais inteligentes, [...] tinha boas cores e músculos de ferro.
acabava [a lição] sempre antes de todos, mas [ficava recortando] narizes no papel ou na tábua. Não queria receber a moeda, e custava recusá-la. Se o mestre não visse nada, que mal havia?

Pai de Pilar
um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante.
Sonhava para mim uma grande posição comercial.
Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão.


Atividade em dupla: 1) identificar quais são os valores dos personagens; 2) criar um personagem semelhante a Pilar e outro parecido com o pai de Pilar.


Personagens
Descrição
Atitude
Valores


Raimundo
Filho do professor. Era mole, aplicado, inteligência tarda. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre.
Vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai.
Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes.
Subornou Pilar.

Mestre Policarpo
Professor de seu filho Raimundo, de Pilar e de Curvelo. [Tinha] andar manso [usava] chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. [E] tinha perto de cinquenta anos ou mais.
Lia devagar três ou quatro folhas do dia, mastigando as ideias e as paixões. Tomava  uma pitada [de rapé], mas tornava logo aos jornais, e lia a valer [...] com fogo, com indignação...
[Usava] a palmatória.

Atividade em dupla: 1) identificar quais são os valores dos personagens; 2) criar um personagem semelhante a Raimundo e outro parecido com o Mestre Policarpo (pai dele).

Personagens
Descrição
Atitude
Valores
Curvelo
levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que [os colegas]
Delator de Raimundo e de Pilar. Faltou à aula à tarde, no dia em que, pela manhã delatou os colegas Pilar e Raimundo. Fugiu de Pilar para não apanhar.


Atividade em dupla: 1) identificar quais são os valores do personagem Curvelo; 2) criar um personagem semelhante a Curvelo.

sábado, 22 de julho de 2017

A ilegalização do trabalho não é poética. Edna Domenica Merola e Marlene Xavier Nobre.

Textos de Edna Domenica Merola: Dia do Perdão, Uma reforma, Acróstico "Posfácio".

Poemas de Marlene Xavier Nobre: Sufoco, Luz do meu viver, Pró-texto, Brasil sem-vergonha, País dos (des)aforados, Ei, sabe com quem está falando?, Um chato grudado na cadeira.

Um chato grudado na cadeira
         Marlene Xavier Nobre

Gente  chata  não é feliz não sabe sorrir
Gente chata é confusa  não sabe brincar é hipócrita é achista 
Gente chata não é confiável  é aborrecida é bairrista 
Gente chata não guarda segredo aponta o dedo joga pedra 
Gente chata não gosta da vida não sabe de nada quer fama 
Gente chata esconde o jogo não olha no espelho se acha convencida 
Gente chata se faz de esperta igual raposa  se faz de boba 
Gente chata é nojenta  escrupulosa  é mentirosa meticulosa disfarça 
Não é dupla face, mas tem duas caras 
Gente chata se enturma igual  manequim de loja adora roupa 
Gente chata fala de tudo, parece caramujo em sua carapaça 
Gente chata é cara pálida, adora uma roda 
– Gente chata se mete nas conversas, sempre se ferra 
Gente chata incomoda  a gente, mas gosta de festa 
Gente chata se acha a mais amada, mas é desalmada 
Gente chata se mete aonde não é chamada, e ninguém suporta 
Gente chata quer parecer artista. Não é criativa: parece se vingar 
Não é protagonista, mas se acha na crista da onda.  É cafona
Nariz de folha 
Chatice!
É uma mistura de bobice. Nela há muita burrice. Não é crendice.

SER CHATO É PIOR QUE CARRAPATO. É PIOR QUE TACHA NO SAPATO.
NINGUÉM MERECE ESTE CHATO, MAS É FATO: 
POR TODOS OS LUGARES EXISTE UM CHATO.
NESTE MOMENTO EXATO, TEM UM CHATO
POR AÍ NA RUA, NA FAMÍLIA, NA FEIRA
E NAQUELA CADEIRA
DA PRESIDÊNCIA TEM UM CHATO GRUDADO, INCOMODANDO TODA UMA NAÇÃO. 

– EI, ACORDA Aí,  MEU GURI!


Sufoco
           Marlene Xavier Nobre

Um país que está afundado
Com tanta bandalheira um povo massacrado, mas que não desiste e que ainda acredita na justiça e na verdade.
É, chega de esconder mentiras. Tem crianças e idosos inconformados, de mãos atadas, sem estudo, sem remédio!
Com tanta malandragem. Há muita pobreza.
Nesses que se dizem governantes:
Muita roubalheira! Já estou perdendo o rumo, sem dinheiro e com olheiras...
Minha conta está vazia e sem comida
E moradia há quanta mordomia as malas só na voadeira pedindo passagem e abrindo ala. A palavra do cotidiano já virou rotina nos noticiários, é sim, é não.
Estou na maior fissura, com tanta opinião; tanta caneta e tantas mãos...
E eu sem poder dar uma voadeira. É tudo um jogo sujo, é mais que lama podre.
Aonde existe safadão e ladrão, não existe união e o povo de boca aberta.
E na próxima eleição, quem pode decidir?
É João, é José, é Maria?
Neste trem da alegria precisamos nos unir. O povo é a força. Tem poder, basta querer; é só enxergar, não se vender.
Precisamos acabar com estes colarinhos brancos que são fora da lei.
Que são bombas que estão a minar, a comandar, a manchar a memória e a história do nosso querido Brasil.
Muitos corações a sangrar. No país das maravilhas, muitas Alice ainda...
Muita miséria em destaque. Pra eles o povo é que se lixe (são lixos)
Estamos nas mãos desses mercenários, sanguessugas, mas temos esperanças
Eles que nos aguardem. Estamos bem próximos de uma nova eleição, no próximo ano que está quase chegando
Disso temos a certeza: ou vão ou rachamos!
Não precisamos de guerra. Há coisa pior que tirar tudo o que o trabalhador conseguiu com os anos trabalhados e o suor do seu rosto?
É muita pilantragem destes que só chegaram pra meter a mão no bolso do povo (que é correto) é muita dor.
Meu povo, vamos nos unir com garra,
Forças e muita esperanças.

Para as eleições de dois mil e dezoito essa será a nossa última chance: a nossa salvação. Vamos acreditar em milagres.

Dia do Perdão
        Edna Domenica Merola

No dia do perdão (8/11/2017), o meu "tudo bem, que não se repita" vai só para quem não acha que roubar de pobre tem perdão.

E o que dizer para aqueles que acham certo mudar as políticas públicas que desfavorecem as classes trabalhadoras e a classe estudantil ?

Digo-lhes que fiquem no limbo para refletir até as próximas eleições. Que se emendem, enquanto isso. (Ou se preferirem, podem ir direto para o Inferno!).


Luz do meu viver

    Marlene Xavier Nobre

Enxerguei a luz do meu viver.

Aprendi a viver, mesmo no escuro.

Escalei montanhas, subi colinas.

Suei, caí, me levantei.

Deixei de fora todos os falsos amigos!

Escolhi os mendigos. São inteligentes, gostam e entendem de gente, são humildes.

Abracei a paz que me impera não sou a mentira escondida

Sinto-me plena e realizada nem que seja ilusória sai de cena.

Não quero a mesmice desses patifes. Estou liberta. Não pago impostos: sou sem grana. Estou de fora. Sou mais uma tatuada pela sociedade. Não sou malandra. Sou marcada pela desigualdade.

Não foi culpa do destino. Nem falta de sorte, mas dos meus direitos retirados.

Quero a liberdade de porta aberta de volta.

Preferi a rua.

Melhor que o descaso e a vista grossa.

Mas a sarjeta.

Não quero ser aprisionada nem acorrentada, mesmo sendo amargurada pelo descaso.

E sem máscaras, sem covardia.

E de cara limpa. Mesmo vivendo no relento, não sou político, nem estou sendo procurado pela lei. Não faço desordens. Não sujo a bandeira brasileira.

Não uso malas, tenho as mãos limpas!

Não uso luvas, nem sapatos engraxados.

Sou um alguém: mais um neste País.

Não tenho roupas, vivo quase desnudo.

Não vejo comida há tantos dias!

Para o escuro, não dou trégua.

Prefiro o dia, mas gosto da lua.

Não tenho medo da noite.

Sou a luz, sou filho de Deus.

Esse que é dono do mundo

Dizem que é pai de todos, é meu também.

Tenho vida sou vivente sofrido que vive no relento debaixo das pontes

Sem moradia, sem alegria,

Mas que tem família.

Nesse meu país da safadeza, quanta pobreza e descaso.

Tem gente boa, gente vadia, gente vazia...

Quanta mordomia, quanta falta de moradia, no meio de tanta riqueza.

Sou mais um perdido que precisa de ajuda

Que suplica por um trabalho e um salário decente

Para reconstruir a minha família,

Minha vida, minha dignidade, minha moradia.

Sou aquele que fui largado pelo descaso deste tal que abocanhou o nosso Brasil:

– Um grande tubarão!


Uma reforma...

    Edna Domenica Merola


Uma reforma que empobrece o país foi votada...

Uma reforma que revolta idosos e alarma crianças que já sabem que

seus governantes apoiam só as elites do país...

Enquanto isso alguém escreve um acróstico, deitado num posfácio...



Por que opinar se posso isentar?


Os ossos do ofício são pra roer?


Saber conviver é preciso.


Fazer de conta é narciso.


Ávido anseio:


Criar sem querer.


Inflama essa fera,


Ouve teu coração.



Pró-texto
         Marlene Xavier Nobre

Um grito seja por dor ou por revolta

É o texto daquele que ninguém escuta

E que não se esconde quando berra

Contra a agonia, a tirania, a covardia

Um grito solta tudo aquilo que se guarda

Que nos incomoda e que está guardado:

‒ Uma mistura de sacanagens que maltrata.


Um grito, na hora certa, nos alivia

É um meio de botar pra fora tantas desordens e baixarias

Um grito é mais que um trombone


Um grito bota pra fora tudo aquilo

Que nos faz mal, que nos sufoca

Ele ecoa nos ares...

O grito fala quando berrado,

sai da garganta e diz:

‒ Não quero mais isso pra mim

e nem assim. Desta maneira.


Um grito bem grande nos liberta

Da nossa agonia.

Um grito é como uma arma que não mata,

Mas ecoa como pólvora,

Não é lenha, mas queima,

Incendeia e devora aquele protesto.


Um grito que queima a garganta

Que pede liberdade de luta,

de igualdade. E de esperanças.

Aquele grito que libera,

Que lidera,

Que liberta

todos os massacrados, os acorrentados e os sofridos

das mãos dos mal intencionados governantes.

Queremos respeito pelo nosso país

‒ pelas brasileiras e pelo brasileiros.

Que assim seja, meu povo!


Brasil sem-vergonha
          Marlene Xavier Nobre

O Brasil era lindo e ninguém via

Não sabia das malandragens

Das sacanagens das agonias

Das malas feitas, mas ria.


Quando criança tinha esperança

Brincava de boneca e de carrinho

Na rua tenha alegria e muita esperança


No dia sete de setembro eu ia

Com minha fantasia, tudo mudou

Jardim sem flor, capim secou

Dia sem cor sem alegrias


Ei, sabe com quem está falando?


Na ilusão, sem poder sonhar e nem estudar neste país da corrupção

Sem coração, sem harmonia

Muita correria e gritaria

Adultos não tem respeito, nem direção

Mal educados, prepotentes

Muitos vampiros com canudinhos

Colarinho branco não falta, muitos de ternos e gravatas, sapatos bem engraxados no morro muita gente boa

Mãos leves e lisas igual sabonete

Só lá em Brasília!

Neste universo o que prevalece

É a tal de mesquinharia

A fama e o status sempre na frente

Ei, sabe com quem está falando?

Sou doutor, sou presidente, sou bacharel, sou fundador, sou o gostoso.

Sou o fulano quem manda e mete a mão

Por aí, muito dinheiro roubado

Muita fome muita miséria.

Pobre do povo miserável e sofrido

Muita bruxaria: muita mala voando

Jogada fora, escondida em edifícios

O povo comendo mosca de boca seca

Barriga vazia. É muita sacanagem

Com o nosso dinheiro abençoado

Nas mãos destes ordinários

Sem escrúpulos, mau caratismo

No meio deste mundo político muita podridão ainda debaixo dos tapetes

O povo perdido nesse sufoco

De mãos atadas, sem poder fazer nada

Sem respirar, e o jeito é gritar mesmo

Botar o bloco na rua erguer a nossa bandeira ,e ter ainda orgulho da nossa

Mãe gentil, coração do mundo

Brasil não pode esmorecer jamais

Pátria de amor e paz que assim seja

Meu povo deste país varonil.

Vamos torcer vamos vencer.

Muitas lutas ainda e labutas o povo unido

Jamais será vencido.


País dos (des)aforados
          Marlene Nobre Xavier

Livrai - me dos pecadores

Livrai - me dos malfeitores

Livrai - me dos indecentes

Livrai - me dos corruptos

Livrai - me do pouco caso.

No País das maravilhas,

O povo se arrasta ainda e chora

Gritando e clamando em súplicas

Por justiças onde na terra de ninguém

só prevalecem as injustiças

O povo pede justiça

Eis a questão? Aonde foram parar os milhões? Ninguém viu, ninguém sabe

As malas passaram voando, na mídia.

Quem pode! Pode!

Quem não pode se sacode!

Cadê os direitos do pobre e sofrido?


Do trabalhador que suou a camisa

Por anos é esperar ver a morte chegar

Sem se lamentar.

Tudo voltou à estaca zero

Pior que arame farpado

Trabalho escravo agora é moda

Está em alta nas mãos dos senhores donos das fazendas.

País que chora, que está engasgado, afogado, desencontrado

Brasil que chora com tanta pobreza.

O que vou falar para os meus netos

Deste nosso Brasil varonil, céu de anil,

Mar azul? Que aqui com tantas belezas

Tudo lidera e impera só sujeira,

Pois os caras de pau destruíram

A memória do nosso Brasil.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Bandeira branca, amor! ‒ uma leitura no dia internacional da mulher. Edna Domenica Merola

Hoje, dia comemorativo do Dia Internacional da Mulher, li um texto, numa conceituada revista eletrônica educacional, algo sobre a história do Dia da Mulher.
O texto relata os protestos ocorridos desde o final do século XIX, na Europa e nos Estados Unidos: manifestações que partiram de organizações femininas operárias. A autora cita greves que reivindicaram o fim das jornadas de trabalho de 15 horas diárias, os salários aviltantes e o trabalho infantil. 
Avaliei que qualquer semelhança com o cenário atual brasileiro não era mera coincidência, e apreciei ainda mais o teor do texto lido. Mas, em seguida, confesso que cometi o pecado de cobiçar a leitura do outro: li o que os leitores internautas escreveram. Tentarei expurgar essa leitura e me redimir de tal ato com a penitência de escrever sobre as falas dos leitores do texto, ao invés de reter apenas a voz original da autora.
Ao iniciar a leitura dos comentários do texto, imaginei que o primeiro comentário fosse de um senhor bem humorado: 
‒ Eu amo as mulheres (fêmeas) porque nasci de uma mulher, casei com uma mulher, tenho duas filhas mulheres, uma neta mulher e até duas cachorras fêmeas. 
Por gostar de pessoas bem humoradas, li os demais. Ao invés de comentar o texto, a terceira comentarista comentou o primeiro comentário: 
‒ Adorei o destaque (fêmea). 
Ao que a quinta comentarista retrucou: 
‒ O "destaque" é porque as mulheres ainda hoje não têm os mesmos direitos dos homens em praticamente nenhum país do mundo. Em nosso país, morre uma mulher a cada duas horas, assassinada por pais, irmãos, maridos, namorados que se acham donos de seu corpo e sua vida. 
E a sexta retrucou: 
‒ Nota-se que você sequer se deu ao trabalho de ler o texto.
A segunda comentarista já aproveitara para pregar
‒ Nós mulheres somos especiais porque fomos feitas por alguém especial: Deus. E o que Ele faz, ninguém desfaz.
O quarto comentarista tentara resgatar o foco, quer seja, o tema abordado pela autora que escreveu para a conceituada revista digital: 
‒ As mulheres têm uma importância fundamental na sociedade, tanto na conscientização quanto na participação ativa nas mudanças que devem criar um mundo novo, mais justo, inclusivo, democrático e igualitário.
Mas o clima de discussão já se instalara, quando um homem dirigindo-se a alguém provavelmente abalizada, mas que não era a autora do texto, escreveu: 
‒ Fulana, o mundo sempre foi machista. O próprio Aristóteles disse no seu livro A Política que os homens eram mais propícios a mandarem do que as mulheres. Você concorda? Então tem que ter luta para quebrar paradigmas.
O desaso começou a “rolar solto”, quando a próxima se pronunciou:
 Esta mulher que tem ideia contra nós, não é mulher. Vai estudar para saber sobre a história das mulheres, ler para aprender! Nós que temos jornada dupla é que somos guerreiras... Você não sabe o que é isso? Com certeza nunca foi humilhada por homens machistas, nem sofreu abuso ...
Ao que a outra retrucou: 
‒ Guerreira, você? Não sabe nem o significado dessa palavra!
Aí outra intercedeu pela “guerreira” mais fraca, em tom religioso ecumênico, e passou uma descompostura na opositora daquela: 
‒ Indico pra você um pouco mais de compaixão e noção do mundo onde vive. Enche a boca pra meter ferro na escrita da moça, mas por acaso está oferecendo ajuda a quem não sabe escrever? Se sim, desculpe. Se não, se retrate e pare de agir como uma arrogante vomitando indelicadezas pelas redes. 
E a última comentarista justiceira passou outra raspança:
‒ O seu comentário não acrescentou em nada! Acho que poderia ter sido construtivo se soubesse usar suas palavras.
E o gongo deve ter batido, pois aquelas vozes se calaram ou foram navegar noutras águas igualmente turbulentas...
Terminada a leitura do primeiro round, concluí com tristeza que as pessoas conseguiram transformar um espaço de comentários num rinque de luta livre. 
Destaco ainda dois comentários masculinos, o primeiro de caráter romântico:
‒ O mundo sem mulheres é um jardim sem rosas, uma rosa sem perfume. Viva as mulheres...
E o segundo é de teor histórico-político: 
‒ Muitas fontes distorcem as informações sobre essa data, tentando desvincular esse movimento das ideias socialistas e transformando a data em um movimento de caráter romântico.
Considerando os comentaristas masculinos, verifico duas posturas masculinas perante as falas femininas: uma que apela para o emocionalismo ou sedução ao falar com ou sobre a mulher e outra para o racionalismo aplicado à análise histórica. 
O romântico fala para a mulher, mas usa estereótipos. O segundo, carregado de verdade científica, parece se dirigir a outros homens (os românticos), já que concorda com a autora do texto, mas não a menciona em sua "fala".
  
Ainda assim, essa madura e saudosa voz feminina que aqui escreve arrisca-se a lembrar dos velhos tempos em que havia diálogo dentro de grupos. Havia discussões com tese e antítese. Havia profundidade nos argumentos que abrangiam segmentos sociais, via de regra, e não apenas imagens liquefeitas sobre as pessoas. Havia o hábito de conversar face a face, olhar nos olhos e chamar pelo primeiro nome.
Hoje, ao tomar por medida os comentaristas citados, concluo que não se leva o contexto social em consideração. Pelo contrário, parece que cada qual se detém a olhar apenas para o próprio umbigo.
Antes eram tempos em que as letras das músicas populares tinham por mote as classes oprimidas e denunciavam as injustiças sociais. Tempos de diálogos tão mais justos, coesos e éticos do que as discussões sem pé nem cabeça de internautas incautos.
Quero ainda cantar: 
‒ "Somos todos iguais, braços dados ou não". 
E levanto uma bandeira branca "pela saudade que me invade" e "peço paz!". 


Pós scriptum

Após concluir a postagem enviei para algumas pessoas conhecidas lerem. 
Uma delas escreveu o que segue: 
"Bem profundo o texto Bandeira branca, amor! - uma leitura no dia internacional da mulher... Infelizmente ainda não dá para levantar bandeira branca, precisamos lutar para conseguirmos o nosso espaço. Seja aonde for. Nós mães somos responsáveis pela criação dos nossos filhos em relação a ter direitos iguais e não ter machismo. Quando tive o meu primeiro filho, os meninos eram diferenciados: só podiam usar roupa de cor azul, e as meninas cor de rosa.  Na ocasião, o homem podia tudo e a mulher nada. Agora as mulheres estão conseguindo o seu espaço. É demorado e ainda falta muito a conquistar em matéria de espaço, seja aonde for. Em casa, na rua ou no trabalho, as mulheres precisam ser mais respeitadas. Ainda há muita discriminação." (NOBRE, Marlene Xavier).

Respondi-lhe que não me referira a levantar a bandeira branca como trégua às lutas femininas e sim a acabar com a falta de urbanidade nas discussões pela internet. É triste ver nas conversas entre pessoas que não se conhecem, como já se odeiam antes de terem sido apresentadas. 
Agradeci-lhe por ter feito sua colocação que suscitou minha resposta... O que poderá levantar outras indagações... Que também serão bem-vindas.

Depois do bilhete da Marlene, recebi o seguinte da Amaridis:


Bom dia amiga Edna,

Como sou da geração do século passado, basta-me dizer o seguinte: sinto estranha diferença entre valores. A educação sempre foi a alma das famílias... Havia uma cartilha que dizia: sua liberdade termina onde começa  a  do outro. Em resumo, havia uma palavra que hoje está em desuso: limites. Havia respeito, o que hoje falta. Havia diálogo, o que hoje não existe.
A sociedade (elite) cresceu e enriqueceu descaradamente... E o povo se estranha a facadas e massacres (lemos em jornais).
A tecnologia mexeu em tudo. Falta humildade em geral. Falta diálogo, somos podados quando queremos ajudar... Sinto que tudo irá piorar... Acabou-se o tempo das gentilezas, dos encontros de famílias... Como? Acabaram-se os termos família e encontros.
Até acho engraçado... Pessoas sorriem para o celular e não se vêem mais aqueles sorrisos, nem se experimenta mais o olho no olho...
Os gêneros querem se enfrentar e cada um ter mais poder que o outro. A luta pelo poder é a maior causa dos desentendimentos. Ouvi de uma pessoa bem esclarecida:
‒ Por que vou ter que abraçar pelo dia das Mulheres?... Se não existe o dia dos Homens?
Acho que o desentendimento será cada vez maior e a falta de respeito entre as pessoas não mudará jamais. Mas devemos  crer que esta fase estará chegando ao fim! E, se eu ainda estiver por aqui, cantarei bem feliz:
‒ Bandeira branca, amor, não quero mais ver a saudade que me invade! Eu peço paz! HU HU HUUU...
Mas só "se a canoa não virar... Olé olé olá/eu chego lá...


Abraço da Amaridis de Souza Melo (AMA).