quinta-feira, 4 de junho de 2015

"Você me pergunta pela minha paixão?" Edna Domenica Merola


Sou professora aposentada e minha paixão continua a ser a de estudar e analisar como as pessoas aprendem, interpretam textos, analisam fatos, se comunicam, se relacionam.
Aproveitando esse espaço democrático – que as mídias oferecem a “qualquer pessoa”–  “não quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos”  (O que eu entendo por aprender nos discos? É recorrer a conteúdos tais como os que colocávamos para tocar na vitrola e que poderíamos repeti-los ou 'cantá-los conforme o compositor' ou "dançar conforme a música").
Na escola, aprender com os discos significa aprender por meio de delongadas repetições, tais como aquelas situações em que alunos eram forçados a decorar as conjunções, as preposições ou a tabuada... Os sermões monológicos de como os alunos não devem proceder (sem partir de onde agem adequadamente) também fazem parte dessa didática de colocar sempre o mesmo disco na vitrola. 
Sei que você não se espantou pelo fato de, mesmo sendo professora com delongada experiência, me coloco aqui como alguém que viveu a “vida de qualquer pessoa”. Você sabe que, sob o aspecto da escolha profissional, minha vida foi mais envolvida do que  “a vida de qualquer pessoa”.
“Quero lhe contar” não só “como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo” e com a minha geração, mas também quero viver esse momento com você que “me pergunta pela minha paixão”. Refiro-me a você que se espanta com o fato de, na minha idade, ter “paixão” pelos estudos.
“Você me pergunta pela minha paixão... Digo que estou encantada com uma nova invenção... Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar” para a megalópole... 
Você me pergunta pela minha paixão e eu lhe pergunto: "seremos reféns das microculturas a tal ponto de não conseguir dialogar com o que vem de fora dela"? 
Pois essa atitude bairrista (que aqui repudio) também me instiga a tentar abrir espaços de diálogos...
Aprendi com “nossos pais” a não fugir de diálogos. Quando diziam ao meu irmão que mais vale um covarde vivo do que um herói morto, eu participava da conversa com a minha opinião.
Eles diziam que “viver é melhor que sonhar" e que para isso era preciso trabalhar, incluir-se no sistema. Sem índole para trabalhar em empresas fui ser professora das séries finais do ensino fundamental, tendo o privilégio de ser professora de torneiros mecânicos cujos salários eram superiores ao meu (Onde? No ABC paulista. Quando? Década de 70 do século XX.). 
Pois BUBER me dizia que sem a utopia  seria impossível “abraçar meu irmão”. E com MORENO aprendi técnicas de como fazê-lo em sala de aula.
Como mestra em Educação sei que devo me abster de poliCIAmento bibliográfico, para poder compreender os caminhos que cada um constrói com os próprios instrumentos para organizar seu conhecimento. Mas aí vai uma explicação acadêmica do que digo:
Segundo Zuben (1990), Moreno, analogamente a Buber, percebeu os conflitos humanos como bloqueadores tanto das possibilidades de relacionamento entre o eu e o outro, como do eu consigo mesmo; quanto do eu com os aspectos transcendentes da realidade. Moreno criou um método de desbloqueio dessas possibilidades.
Traduzo (hoje, aqui-e-agora) esse método moreniano de desbloqueio como "pedagogia para abraçar meu irmão"...
A pedagogia para “abraçar meu irmão” parte do contato para criar canais de aprendizagem... É tarefa de todos, ainda que a competência técnica, pessoal e afetiva da professora conte muito para tal intento. Refiro-me a abraçar os valores, os anseios, os talentos, os sonhos de quem aprende e de quem ensina. Daí sim vale dizer, novamente, mas num novo sentido que: “viver é melhor que sonhar", pois é preciso a relação, o contato, o vínculo para criar canais de aprendizagem.
Numa tarde de junho de 2015, num seminário, ouvi o discurso dum jovem colega sobre a letra da música Velha Roupa Colorida. Explicou-nos como os autores usaram, numa mesma estrofe, citações de um autor canônico da Língua Inglesa (Edgar Alan Poe) e de um compositor como Luís Gonzaga (identificado com a cultura do Nordeste brasileiro, que, à época, era uma região pobre):

“Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: "Black bird, o que se faz?”.
Haven never haven never haven
Black bird me responde
Tudo já ficou atrás
Haven never haven never haven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

As explicações dadas pelo jovem colega sobre as citações me fizeram pensar sobre a qualidade de excelência das letras das músicas de dois autores brasileiros, quer da década de setenta (vide Anexo 1) como também de cinquenta (vide anexo 2).
Esse diálogo cultural não deve ser conduzido nem com apreço ao passado e nem com elitismo e nem para valorizar o que é nosso a partir da comparação com o estrangeiro. Esse diálogo cultural só é útil, pedagogicamente, se feito para usar o diálogo para “abraçar meu irmão”, ou seja, abarcar as contribuições das falas que a academia considera, ainda, infelizmente, à margem de seu discurso.
É nesse intuito que deixo aqui o testemunho da “minha paixão” pelo diálogo em prol da inclusão. 
E aí eu exorto (agora, sim, como madura professora experiente) a que você entre em contato, primeiro com o assum-preto que vive dentro de você: "que vive solto, mas não pode voar" (Assum Preto veve sorto/ Mas num pode avuá)... 
E aí eu compactuo: todos têm de enfrentar seus medos, "meu irmão"!
É de forma despretensiosa (de uma professora aposentada) que “eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer” e que ela depende da sua coragem para abrir seus espaços, dialogando sobre suas convicções, exercitando sua liberdade de expressão, sem medo ou culpa.
O espaço acadêmico dado pela Universidade deve ser o local privilegiado para esse exercício de coragem. 
Não importa se igual ou diferente dos nossos pais. 
Não importa se igual ou diferente dos nossos preceptores, mestres ou mentores intelectuais.


REFERÊNCIAS

ZUBEN, N. A. Von – Jacob Levy Moreno e Martin Buber: um encontro. In: AGUIAR, M. (coordenador) – O Psicodramaturgo, J. L. Moreno (1889-1989). São Paulo: Casa do Psicólogo, 1990.

ANEXO 1

As músicas Como nossos pais e Velha Roupa Colorida são de autoria de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido simplesmente como Belchior (*Sobral, CE 26/10/1946. +Santa Cruz, RS, 30/4/2017).
Belchior foi coetâneo do músico carioca Gonzaguinha (filho de Luís Gonzaga, autor de Assum-preto).

Seguem as letras da músicas de autoria de Belchior citadas aqui:

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais


Velha Roupa Colorida. Fagner e Belchior


Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
Hope you like this The Beatles HD wallpaper as much as we do!

Nunca mais meu pai falou:"She ´s leaving home"

E meteu o pé na estrada, "Like a Rolling Stone..."

Enviar por e-mail BlogThis! Compartilhar no Twitter Compartilhar no ...Nunca mais eu convidei minha menina
Para correr no meu carro...(loucura, chiclete e som)
Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz

No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
Gravura de Poe e algumas de suas criações

Como Poe, poeta louco americano, 
Eu pergunto ao passarinho:
Black bird, o que se faz?
Haven never haven never haven
Black bird me responde
Tudo já ficou atrás
Haven never haven never haven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais
Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era jovem novo,
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer (bis)
E precisamos rejuvenescer.

ANEXO 2

Luiz Gonzaga do Nascimento, conhecido como o Rei do Baião, (Exu, 13 de dezembro de 1912 — Recife, 2 de agosto de 1989) foi um importante compositor e cantor: um dos mais inventivos da música popular brasileira. 
Cantando acompanhado de sua sanfona, zabumba e triângulo, levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a cultura do Sertão Nordestino, ao resto do país, numa época em que se ignorava o baião, o xote e o xaxado. De 1946 a 1955, foi o artista que mais vendeu discos no Brasil.
Assum-Preto foi lançada em 1950. 
A cantora baiana Gal Costa gravou Assum- Preto em 1970, no auge da Tropicália. O Tropicalismo, de certa forma, retomou o movimento pop mundial, assim como o regionalismo brasileiro.
Dr. Aureliano, faça um esforçopara levar a paz à minha terra ...



Assum Preto
Compositores: Humberto Teixeira / Luiz Gonzaga

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió (bis)

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vezes a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus..


Link: 


sábado, 16 de maio de 2015

O Bêbado e a Equilibrista. Edna Domenica Merola.

O Bêbado e a Equilibrista é uma composição da dupla João Bosco e Aldir Blanc que ficou conhecida pela interpretação de Elis Regina.
Na memória coletiva brasileira, a música O Bêbado e a Equilibrista remete ao movimento pró “Diretas Já” e pela anistia política. Isso significava que – no final da década de 70 do séc. XX – a sociedade brasileira almejava livrar-se do bipartidarismo (ARENA e MDB) e das eleições indiretas, assim como devolver os direitos políticos e descriminalizar aqueles que haviam se rebelado contra a ditadura.

Neste texto, o bêbado será lido enquanto metáfora dos que sofriam os efeitos das exclusões sociais advindas de políticas públicas justificadas pela teoria da degenerescência. E a equilibrista comparecerá como metáfora da classe artística que se via constantemente às voltas com a censura. Essa se impunha com força de guerra como se o território cultural fosse o mesmo que o geográfico, devendo ser defendido pelo exército. Seus opositores — intelectuais/artistas — deveriam ser perseguidos como acontece numa verdadeira caça à raposa. A música popular brasileira será enfocada sob o viés dos governos dos generais Médici e Geisel e de algumas escolhas das músicas de 1973 a 1979: Agnus Sei, Caça à Raposa, Mestre-Sala dos Mares, O Bêbado e a Equilibrista.
Durante o Regime Civil-Militar brasileiro, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) vigorou de 1968 a 1978, evidenciando um panorama político de repressão truculenta e de censura à arte. O conservadorismo vigente na Era Vargas já sofrera desconstruções no âmbito do comportamento (moda, gosto musical, moral e costumes) que se consolidaram, de certa forma, no final da década de 70 com a aprovação da Lei do divórcio (Lei nº 6.515, de 26 de Dezembro de 1977). Mas politicamente, a década iniciou e terminou sob as rédeas dos generais.
Para este estudo considerou-se ilustrar algo emblemático na MPB: o trabalho conjunto do músico (João Bosco), do letrista (Aldir Blanc) e da intérprete (Elis Regina) que apesar de coetâneos iniciaram suas carreiras em três décadas diferentes (50, 60 e 70 do séc. XX).
Elis Regina nasceu em Porto Alegre - RS, em 17/03/1945. Iniciou sua carreira em 1956.
Aldir Blanc Mendes, 02/09/1946, Rio de Janeiro. Compositor e escritor. Iniciou sua carreira em 1963. Notabilizou-se como letrista a partir de suas parcerias com João Bosco, criando músicas como Bala com Bala, O Mestre-Sala dos Mares, De Frente Pro Crime e Caça à Raposa.

João Bosco de Freitas Mucci, Ponte Nova, MG. 13/07/ 1946. Cantor, violonista e compositor brasileiro. Iniciou a carreira em 1972. Desde cedo teve influência musical da família; aos 12 anos ganhou um violão verde e passou a integrar o conjunto de rock X-Gare; em 1961 transferiu-se para Ouro Preto onde fez curso secundário e engenharia; teve forte influência da bossa nova e do jazz; em 1970 em viagem ao Rio de Janeiro conheceu Aldir Blanc que viria a ser seu parceiro mais constante, tendo feito juntos mais de cem músicas; formou-se Engenheiro em 1973 e nesse mesmo ano gravou seu primeiro LP "João Bosco". Autor de mais de duzentas composições, as mais famosas são: O Mestre-Sala dos mares, De frente para o crime, Dois pra lá dois prá cá, Kid Cavaquinho, O bêbado e a equilibrista, Amigos novos e antigos, Perversa, Cabaré, todas com Aldir Blanc. Além de Papel Machê, com Capinam.





Aldir Blanc declarou em depoimento para fins jornalísticos que considerava Elis Regina muito generosa. Conta que foi bem recebido por ela desde o primeiro encontro, apesar dele ser novato e ela já famosa. Quando expôs seu repertório ela escolheu Bala com Bala para gravar de imediato (1972).

Após o falecimento da cantora Elis Regina, em 1983, a Gravadora: Polygram/Fontana lançou uma coletânea do tipo LP (long play) com doze músicas originalmente gravadas de 1972 a 1979.  Trata-se do álbum Elis Regina interpreta João Bosco e Aldir Blanc. Desse álbum, foram selecionadas para análise as músicas: Agnus Sei (1973), Caça à Raposa (1974) e Mestre-Sala dos Mares (1974) para serem colocadas em diálogo com o mote proposto em: O Bêbado e a Equilibrista (1979).




O Bêbado e a Equilibrista

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil.
Meu Brasil!...

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarices
No solo do Brasil...

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...

O Bêbado e a Equilibrista remonta ao período das diretas já e do movimento pela anistia aos exilados (foragidos). É uma das canções mais conhecidas, da parceria entre Aldir Blanc e João Bosco que se tornou um hino contra a ditadura militar, também tendo sido gravada por Elis Regina. Um de seus versos: sonha com a volta do irmão do Henfil – faz referência ao cartunista Henrique de Sousa Filho que à época tinha um irmão, o sociólogo Betinho, em exílio político no exterior.
Em: Choram Marias/ E Clarices/No solo do Brasil, há referência à viúva de Vladimir Herzog, professor da USP e jornalista da Cultura. Vlado Herzog foi torturado até a morte (em 25/10/1975) nas instalações do DOI-CODI, no quartel-general do II Exército, em São Paulo, após ter se apresentado ao órgão para prestar esclarecimentos sobre suas ligações e atividades criminosas.
Em março de 1979, 15 anos após o golpe militar de 1964, João Batista Figueiredo assume a presidência da República. Ex-chefe do Serviço Nacional de Inteligência, o antigo SNI, Figueiredo tinha a tarefa de consolidar a abertura política e assegurar a transição democrática. Sua primeira medida nesse sentido foi a sanção, em 28 de agosto de 1979, da lei 6.683, que concedia anistia a todos os que haviam cometido crimes políticos desde setembro de 1961 até aquela data. A lei teve efeito imediato e beneficiou 2.200 pessoas, que puderam deixar a clandestinidade ou retornar ao Brasil após exílio no exterior.
O sociólogo Herbert José de Souza, Betinho, retornou após oito anos de exílio, em 16 de setembro de 1979. No aeroporto de Congonhas (São Paulo, SP) foi recebido pelo irmão, o cartunista Henfil, e por vários amigos. Em entrevista à repórter Helena de Grammont, Betinho contou que todos ficariam felizes no dia em que anistia fosse ampla, geral e irrestrita. A reportagem foi ao ar no Fantástico daquele dia.
Muitos dos beneficiados pela anistia voltaram à cena política nacional se ligando aos novos partidos políticos fundados desde novembro, depois de aprovada a lei orgânica que extinguiu a Arena e o MDB e restabeleceu o pluripartidarismo no país.

Agnus Sei

Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
Vão levar ao reino dos minaretes
A paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer satã só com orações
Á andá pa catarandá que deus tudo vê
Á andá pa catarandá que deus tudo vê
Á anda, ê hora, ê manda, ê mata,
Responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da santa-inquisição
Ah, o tribunal não recordará
Dos fugitivos de Shangrilá
O tempo vence toda a ilusão.

Agnus Sei foi gravada por Elis Regina, em 1972. A letra faz referência metafórica aos Anos de Chumbo com a prática de colher depoimentos sob tortura no DOI-CODI- Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna: órgão de inteligência e repressão, subordinado ao Exército do governo brasileiro, durante o regime inaugurado com o golpe militar de 31 de março de 1964.
Emílio Garrastazu Médici (1905 — 1985) foi Presidente do Brasil entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974. Ao longo do seu governo a ditadura atingiu seu pleno auge, com controle das poucas atividades políticas toleradas, a repressão e a censura às instituições civis foram reforçadas. E toda manifestação contrária ao sistema foi proibida. Foi um período marcado pelo uso sistemático de meios violentos como a tortura e o assassinato.
A música Agnus Sei recebeu prêmio de um pasquim carioca. Segundo Joca Lofi: “Em 1972, O Pasquim sobrevivia a duras penas. Longe iam os dias em que o semanário carioca representava a linha de frente da resistência ao regime militar. Da brilhante equipe que fundara o pequeno jornal muito pouco restara. Os que ficaram foram obrigados a diversificar as atividades do jornal, como o lançamento da Editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu) a fim de editar títulos de intelectuais de esquerda ou de colaboradores sem acesso ao mercado editorial tradicional. [...] A primeira edição do Disco de Bolso teve a tiragem de 30.000 exemplares, vendidas unicamente em bancas de revistas. No lado 'A' trazia a primeira gravação de Águas de Março, composição de nosso maestro maior Antonio Carlos Jobim e interpretada pelo próprio. Do outro Agnus Sei, uma intrigante composição de uma dupla que iria dar o que falar nos anos seguintes, o mineiro João Bosco e o carioca Aldir Blanc...[..] Agnus Sei apresentava uma certa religiosidade profana, coisa típica do interior das Gerais, temperada com uma boa dose de cinismo agnóstico vinda da urbanidade carioca de Aldir Blanc, pontuada pela batida flamenca do violão de João Bosco. Uma música perturbadora.” (Por Joca Lofi. Disponível em


O título Agnus Sei faz um trocadilho com a expressão latina agnus dei (cordeiro de Deus), fazendo uma remissão ao herói que morre para salvar aos demais.





Outra expressão latina compõe ainda seu universo vocabular: dominus dominium que remete ao senhor todo poderoso. Há remissões vocabulares ao cristianismo medieval e suas guerras contra os muçulmanos: cruz, santa inquisição, heróis do bem, ariete (Máquina de guerra para arrombar portas e se desconjuntar muralhas.), minarete (Torre de mesquita, de onde os fiéis são chamados à oração.), fumaça negra (usada em conclaves no Vaticano, quando este ainda deve continuar), ovelha negra (pecador). No entanto, essas remissões são usadas para professar a descrença no pastor ou governante que irá ser infiel: O meu pastor não sabe que eu sei/ Da arma oculta na sua mão. Palavras que lembram as pronunciadas em cultos afros misturam-se à negativa de mandar matar e optam por responder negando: Á andá pa catarandá que deus tudo vê/Á andá pa catarandá que deus tudo vê/Á anda, ê hora, ê manda, ê mata,/Responderei não!

Caça à Raposa

O olhar dos cães, a mão nas rédeas
E o verde da floresta
Dentes brancos, cães
A trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta: foi por lá
Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães
Nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança
Afaga o coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno
Afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos: terminou
Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah! Recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah! Recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! Recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo, e o fogo...

A música Caça à Raposa faz referência metafórica à perseguição política aos intelectuais. Em 1974, data da primeira gravação da referida música, o general Ernesto Geisel tomou posse da Presidência da República com um discurso de abertura política (na época chamada de distensão). Isso significaria a diminuição da censura, investigar as denúncias de torturas e dar maior participação aos civis no governo.
No entanto, o que ocorreu foi o oposto, a exemplo da tortura e morte de Vladimir Herzog, em 1975.

Mestre-Sala dos Mares (letra original sem censura)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

Para comentar O Mestre-Sala dos Mares partimos da letra original (que fora censurada e modificada nas gravações de Elis Regina), mas salva em uma interpretação da cantora, quando de sua apresentação em viagem ao México. Retomaremos o período no qual se apregoava a teoria da degenerescência e o alienismo.
Segundo Merola (2004), no final do século XIX, foram criados os hospícios, iniciativa calcada no alienismo como expressão da Medicina Social, cujas preocupações eram a marginalidade social, o crime, a pobreza e a loucura. A crítica à corrente alienista é feita na literatura brasileira por Machado de Assis, na obra O Alienista, conto que faz uma caricatura do uso social do confinamento do diferente.
No início do século XX, com o agravamento dos problemas urbanos, a teoria da degenerescência, propondo a higienização e manutenção da ordem social, ganha força na sociedade brasileira que almejava ingressar no processo de industrialização.
A teoria da degenerescência considerava a existência de uma hierarquia racial, na qual a raça ariana sobrepujava as demais, e os negros ocupavam a posição biológica inferior. Os princípios positivistas de ordem e progresso já presentes no ideário brasileiro possibilitaram a união das correntes alienista e da degenerescência, em que o confinamento do louco deveria ser conjuminado com a prevenção social da loucura.
O Mestre-Sala Mares, de João Bosco e Aldir Blanc é um samba enredo feito à época da ditadura (1975) em homenagem ao marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, mais conhecido como "Almirante Negro". Mas devido à censura da época, aparece na letra da música como "navegante negro". À época, a república brasileira tinha apenas 21 anos. A Marinha tinha um histórico de apoio à Monarquia brasileira.
Naquela revolta, os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais aos marinheiros não fossem suprimidos.
A princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas medidas que acabaram com as chibatadas, bem como um projeto que anistiava os amotinados.
A Revolta da Chibata foi um movimento idealizado por Francisco Dias Martins, o Mão Negra e os cabos Gregório e Avelino, e depois liderado pelo cabo da Marinha João Cândido, o "Almirante negro", semianalfabeto, que se insurgia contra os desmandos na marinha: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais (chibatadas), que tinham sido reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo. Por isso a revolta, iniciada em novembro de 1910, ficou conhecida como Revolta da Chibata.
Os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais não fossem suprimidos. Em Princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas medidas que acabam com as chibatadas, bem como um projeto que anistia os amotinados.
Mas a anistia não durou dois dias. Em 28 de novembro, os marinheiros foram surpreendidos pela publicação do decreto número 8400, que autorizava demissões, por exclusão, dos praças do Corpo de Marinheiros Nacionais "cuja permanência se torne inconveniente à disciplina".
 O Governo traiu os revoltosos, que foram presos, perseguidos, e encaminhados para uma prisão subterrânea na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Quase todos morreram sufocados, pois a cela era subterrânea, sem ventilação e estava cheia de cal. Sobreviveram João Cândido e o soldado Naval João Avelino. João Cândido foi perseguido, considerado louco e morreu aos 89 anos, em 1969, quase no anonimato, como vendedor de peixes.
Em 24 de julho de 2008, através da publicação da Lei Federal nº 11.756/2008 no Diário Oficial da União, a anistia post mortem foi concedida a João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata. Entretanto, a reparação financeira às duas únicas famílias que se apresentaram foi vetada pelo governo.
Desta forma, a música popular brasileira foi trazida à baila em suas confluências com o período político-cultural, pretendeu esboçar as imbricações do autoritarismo truculento do período que vai de 1972 a 1979 (governo dos generais Médici e Geisel) sobre a classe dos intelectuais e de artistas, ilustrando por meio do encontro entre a intérprete Elis Regina, o compositor João Bosco e o letrista Aldir Blanc e tomando-se por objeto as músicas: O Bêbado e a Equilibrista, Agnus Sei, Caça à Raposa, Mestre-Sala dos Mares.

REFERÊNCIAS

MEROLA, Edna Domenica. Psicodrama e psicodramatistas no Brasil (1963-2003). Dissertação de Mestrado. São Paulo. UNIMARCO. 2004.
Página Oficial de João Bosco http://www.joaobosco.com.br
Depoimento de Aldir Blanc sobre Elis Regina
João Bosco canta Bala com Bala
Blog Música em Prosa, O Mestre-sala dos Mares. Homenagem ao Almirante Negro, João Cândido.
Fontes:
MESTRE SALA DOS MARES. João Bosco. http://letras.mus.br/joao-bosco/663976/