quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cânticos de Recordações. Edna Domenica Merola

Regina Rennó

Edna Domenica Merola acredita que as lutas por oportunidades no contexto atual demandam muita força e empenho, principalmente no campo das artes e em especial da autoria feminina. Por isso apresenta, nesta postagem, sua palavra poética sobre o encontro amoroso visto do ângulo da mulher.



I- Em botão

 

A aurora debruça-se

 em minha janela

Do seu colo nu,

brotam lembranças

     de você

 

Sob as copas das árvores,

Cantam canários,

Sussurra o vento

Doce acalanto

          de suaves

          recordações.

Um raiozinho de sol

Seca pequena gota de orvalho,

Minha percepção vê detalhes

                              de você.

 

Teu corpo pôr-do-sol

Teus olhos mares azuis

Teus braços caracóis

Teus cabelos, vermelhas labaredas.

 

Tua insistência me estonteia

Tua decisão me admira

Tua poesia me enternece

Teu pragmatismo me inveja

Teu estresse me preocupa.

Tua irritação me desagrada. 

 

E você é mais

                    Do que eu percebo

E você é mais

                    Do que você percebe

E você é mais,

do que jamais

Alguém perceberá

 

E você é minúscula réplica do divino infinito,

E você é espiritual...

Transcendental...

Do encontro de nossos corpos

Abre-se uma porta

Estira-se uma ponte

Estende-se uma estrada

Fundem-se corpo e mente.

 

E é tão sublime,

Amor Maior,

Dizer frases obscenas,

Berrar, gemer, estremecer

E até adoecer

                    De medo

De ser fêmea em plenitude de repente.

Botão virando rosa

                              Simplesmente.

 

 

II- Num baile Carnavalesco

 

Homens... Muitos! Afoitos

Mulheres seminuas

Carnaval...

Alegria respirada no ar:

Como lança-perfume.

Fantasia de penas brancas:

Sou então uma índia brasileira.

 

Para um olhar azul

Retribuo sorriso meigo-sensual.

Inicia-se o ritual:

A dança paradoxal

Da aproximação de dois polos distintos. 

Ataque ansioso – acolhida serena,

Beber muito – estar sóbria,

Dançar – descansar.

A dança paradoxal:

Compasso – descompasso,

Equilibrar copos – encontrar cadeiras,

Dançar – procurar.

 

No pique – repique,

Então acertamos o passo:

Carnaval ... compasso:

Passo com: – você

Você:  – comigo.

Numa noite estrelada

                    Enluarada

Num baile carnavalesco,

Procurou-se: – alguém,

Perdeu-se: – a tristeza

Encontrou-se: – um menino bem crescido

 Natural – como um índio.

 

  De fantasia de índia brasileira...

   Sou então: – viva cachoeira.

 

 

III- Em busca de plenitude

 

Nesse instante em que o dia agoniza,

Raios de sol retidos no meu ventre

dançam como enormes serpentes.

 

O amarelo

que batia desesperadamente em minha vidraça

entrou e dourou meus cabelos.

 

E esse rosa exagerado

que ficou após a grande bola-ouro

penetrar o útero da terra

reflete o tom de minhas faces em fogo.

 

Uma brisa fresca acaricia meu corpo...

(Brisa auto correio: – trouxe-me lindas notícias do meu inconsciente)

 

Instantes de estranha magia,

Estes em que a noite copula com o dia.

Divino entrelaçar de elementos opostos,

Resfolegante luta entre brilhantes e opacos.

 

Enfim... Plenitude: a noite cavalga o dia.

é o momento incontestável

do orgasmo universal:

Astros brincando...

Estrelas despudoradas mostram-se todinhas!

E o véu negro da noite, ciumento,

Deixou só por poucos momentos

A lua nuazinha.

 

O sereno cai, umedecendo lírios silvestres,

Tal qual efeito de pudica orgia,

Nesse instante em que a terra ficou grávida

 do calor de uma noite de alegria!

É noite. O silêncio é cúmplice do mistério.

A escuridão, irmã dos instintos,

permite a visão dos corpos celestes.

É noite. É permitido SER,

AMAR,

SENTIR PRAZER,

VER,

PENSAR,

ANTEVER,

TRANSCENDER...

É noite.

Animus e Anima buscam o Uno,

em seu leito Universal!

 

IV- Num Encontro

 

Farol vermelho, olhares oblíquos.

Convence-a a mudar de trajeto:

Um homem de branco

(insistente como um carrapato)

Ele faz o sedutor.

Ela diz não

(não quer ser presa de ave de rapina)

Sem acordo... Adeus...

.......................................................

Telefone toca.

Ela atende.

Do outro lado,

Carrapato branco jorra o vernáculo.

(Palavras em profusão não a convencem)

Mas de repente, Branco declara

querer ler suas poesias.

Gelo derrete.

Andorinha bate as asas

Voa ao encontro do gavião.

............................................................

Geladeira na sala.

Poesias.

Vinho alemão.

 

Dentro do armário há uma pia

Cuja torneira pinga sem parar.

São Paulo é fria

Dois corpos querem se aquecer.

 

V- Na mão

 

Amanhece...

Pequeno Grande Homem

Sai às ruas de branco,

Andando apressado,

Pasta na mão.

Pouca paciência,

Muitos ideais.

Grandes certezas,

Enormes convicções:

– Importante ter status...

– Necessário ter amigos...

– Impraticável casar...

 

É noite...

Pequeno Grande Homem

Volta pra casa cansado,

Andando apressado,

Pasta na mão.

Mais um dia na metrópole desvairada

Mais um dia de pequena paciência,

de grande certeza de homem ideal.

Pequeno Grande Homem também tem sonhos

                    Dúvidas, angústias, confusões

 

Então fala sobre eles

com ausente azul olhar

sem pretender resposta

do surpreso interlocutor.

Pequeno Grande Homem:

ora lúdico, ora em concentração,

Sempre insistente,

Pedindo muita atenção.

 

Após tanto labor...

tem fome,

voracidade de pessoas,

Sede de amor...

 

Pequeno Grande Homem

Procura uma fêmea apressado,

Buscando calado,

Sem nada na mão.

 

VI – No encontro - terra

 

Aproximamo-nos de mansinho.

Meu coração bate descompassado,

Na expectativa de que me abras a porta do teu.

Deixas apenas uma fresta

E por ela vem tênue luz

Que me convida para encontro.

Titubeio...

 

Entrar e sentir tua aceitação-rejeição?

Ficar adorando fantasias passadas?

Escolho correr o risco.

Persigo a luz envolvente.

Enfim conseguimos contato,

Por apenas um canal.

Por ele me expresso inteira:

 

Vivo o mítico encontro-terra,

Instintivo, universal.

 

Serpenteamos,

buscando o fruto do prazer

...........................................

..........................................

Ah! Doce êxtase!

Do teu corpo emanam raios do teu fluído vital.

Bebo tua luz

Sugando e emanando energia,

Nesse círculo envolvendo nossos corpos.

 

Então dá-se a gênese:

Estrondo atômico,

E silêncio de vácuo.

 

Cumpre-se a lenda:

– A maçã foi comida...

Até a semente!

 

VII - Em Transfusão

 

Teu corpo é aurora no campo orvalhado,

É relva macia, é feno molhado,

É favo de mel.

É santuário de essência imortal

É depositário de fluído extra-sensorial

É início de uma escalada dolorida

É fim e princípio de vida.

 

Teu corpo, moreno, é pôr-do-sol,

É lusco-fusco vestido de translúcida fantasia,

É convite para uma noite de orgia,

É delicada concupiscência e estranha nostalgia.

Teu corpo visto de longe, tudo bem!

Teu corpo sentido de perto é um vai e vem!

Mas que estranha irradiação é essa que estonteia?

Que doce troca magnética é essa que se esparge?

Só sei que, de repente, frio e calor

Tornam-se morno,

Verde e amarelo dão azul...

 

E, da dança de dois corpos

Funde-se uma aura unicolor.

 

 

VIII- Em Transmutação

 

A manhã é azul

A tarde rosa,

A noite negra.

Também sou:

Azul rosa negra

Transmutante

Sou azul,

Gaivota cintilante,

Semeando lírios, no céu.

Azul, no amor universal

Azul, no enfoque existencial

Azul transcendental.

Sou cor de rosa,

Na esperança do amor,

No enlevo,

Na gratificação do aconchego.

Sou cor-de-rosa choque

No êxtase borbulhante

De dois corpos, no encontro.

Sou vermelho

E vermelho escuro

E negro.

 

Numa gradação contínua,

Que vai dos instintos aceitáveis banais

À sombra fria do desconhecido.

 

 

IX- Nos bares

 

Era mulher, na roda dos bares

Dos nomes calados, na roda, sem lares.

 

E a musa murchou

E o vento levou

Bons moços sem,

Bem moças zen

bailando pesares.

 

E a onda passou...

E o foco mudou...

 

E quando puderes,

Na roda sem pares

Dos nomes casados,

Dos rostos calados,

Na roda de andares,

Recorda os passares

Recorda os cantares

Recorda os sonhares.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Por favor, tome vacina e esqueça a cloroquina! Edna Domenica Merola

 


Já mandei você calar a boca. Já disse pra você não chamar ninguém de "maricas", pra não chamar doença mortal de gripezinha! E até escrevi uma ode à Ciência (aquela que você ignora).
"Ave Ciência plena, ave!
Graças por suas descobertas, graças.
Que tua luz clareie sem cegueiras,
Ave do céu sem fronteiras,
Imunize mandantes da corrupção e da ganância, ave.
Vacine-os contra a ignorância, ave!
Livrai-nos da manada de porcos que dispara do Planalto
Venha por fim aos sem princípios
Que retornem os sem fronteiras de antes do golpe.
Que esse que fala de gripezinha e marica,
Que dizima floresta e maloca
Que profere Palavra Louca
Que Deus cale a boca dele: sem princípio,
agora e sempre.
Amém."
Na impossibilidade de calar a boca, pode já ir mudando seu discurso, ao menos, falastrão!?
E rezei, rezei muito pra você respeitar a fé dos outros: todos os orixás e todas as santas e santos. E os avatares. Orei pedindo pra você aprender a meditar...
Achei que você devia fazer um ebó que sua causa foi colocada na boca do sapo e só lhe restava implorar nas sete linhas.
Mas não fui assertiva. Errei, sim... na didática. E por conta disso dou a mão à palmatória.
Desejo que imite meu ato nobre: o de reconhecer e corrigir um erro.
Por isso, menino, vou dizer algo que quero que recite como um mantra:
- Por favor tome vacina e esqueça a cloroquina!

domingo, 6 de dezembro de 2020

Peripécias de Pandemia. Edna Domenica Merola.

Meu nome é Canis Narrator. Se fosse modesto, diria simplesmente que sou alguém que gosta de contar histórias, além de dar e receber fidelidade à humana que me chama de filhote até hoje, apesar de que já estou na terceira idade canina.

Mas como pertenço à Academia dos Há Cães Dêmicos, vou logo dizendo que sou produtor de roteiro para canais de televisão especiais para entretenimento canino. Então é claro que vou contar a história que foi premiada como melhor episódio do Canal Xis Cão, no programa Levante as orelhas que lá vem história!

A história se passa em Florianópolis, em 27 de abril de 2020, durante o isolamento social para evitar a proliferação do Covid 19.  Não sei se já deduziram, mas a minha mamãe humana já não é tão nova como antigamente foi... (dá uma dor esdrúxula ao dizer isso, porque não há eufemismo que o sustente sem parecer ridículo).

Mas abana o rabo que lá vem história, caro leitor! Já que agora começa o propriamente dito, vivido, presenciado, que foi quando Mamãe resolveu me tirar do meu sossego contemplativo e assistir TV naquela altura que não há cão que aguente!

Aleatoriamente, ela ligou num canal no qual passava um programa de culinária e teve novamente aquela necessidade premente de ir ao supermercado.

– O que iria fazer?

Vestiu-se para sair e...

Não podia. Então se amarrou na poltrona.

Verificou que tinha ficado bem amarrada. Não poderia fugir...

O telefone tocou, não daria tempo de se desamarrar para atender. Resolveu não tentar fazê-lo, seria um desgaste inútil ou um risco.

Na dúvida, continuou onde estava.

O programa a que assistia aguçou a sua fome. Será que teria todos os ingredientes para fazer a receita apresentada? Lembrou-se dos itens que estavam lá no armário da cozinha destinado para tal fim.

Estariam na validade?

Pensou em se desamarrar para conferir. Mas amarrar tinha dado um trabalho tremendo!

Alcançou o celular sem se desamarrar.

Havia várias mensagens e uma ligação não atendida. Era a filha mais velha: minha irmã humana.

– Teria ficado preocupada, já que Mamãe não atendeu?

Mamãe considerou que sim. Mas depois relaxou, afinal uma pessoa deve ter direito a ir ao banheiro sossegada!

– Quantos minutos teria para um banho normal? – conjecturou Mamãe.

Precisaria cronometrar, mas o celular escorregara. Agora não dava para alcançá-lo. Pensou em alguma maneira de cronometrar o tempo, sem celular ou relógio. Pensou na contagem numérica, mas era entediante. Considerou que cantar uma canção popular repetidamente para compor o tempo de um banho com cuidados especiais na lavagem dos cabelos seria uma alternativa para seu impasse.

Foi quando iniciou um cálculo complicado e quiçá promissor. Qual a duração da música O bêbado e a Equilibrista? Teria que cantá-la quantas vezes, tendo em vista o seu propósito?

Ouviu outro soar de campainha. Era o interfone. Teria alguém na portaria procurando por Mamãe? Ou seria engano? Era apenas um funcionário transmitindo algum recado? E se fosse alguma emergência?

Talvez devesse se desamarrar de imediato.

Não sei se já perceberam, mas Mamãe tem lá seus dotes artísticos. Com tanto movimento na interpretação musical o nó tinha ido para o lado posterior da cadeira, estava difícil de alcançá-lo. O que fazer?

Resolveu tentar escorregar... Sim, estava dando algum resultado... Estava quase no chão... Chegou, finalmente, mas com uma tremenda dor no corpo.

Constatou, finalmente, que seria melhor pedir ajuda para levantar. Mas como?

Arrastou-se até o celular. Tinha um recado de voz deixado pela filha. Dizia que estivera no supermercado, que telefonara de lá para saber se queria completar a lista que lhe dera. Como Mamãe não atendera, a filha (que não tem faro de cão) deixara as compras na portaria, pedira ao funcionário para interfonar e avisar, posteriormente, porque devido à quarentena demandada pela pandemia não poderia entrar e abraçar nossa progenitora.

Mamãe tivera que lutar corporalmente com sua compulsão de ir ao supermercado. Não conseguira conversar com a filha para pedir os ingredientes da nova receita que aprendera. Estava com dores no corpo e não podia sair para ir à massagista.

Foi então que percebi que Mamãe estava ofegante. Resolvi fazer uma performance de cão São Bernardo e mordi uma das pontas das amarras... Puxei! Foi bem fácil. Mamãe ainda era uma excelente atriz, pois apenas imaginara que se amarrara!

– Que dia de cão! – pensou Mamãe.

– Nem brincar de São Bernardo teve graça! Que dia de humanos em pandemia! – pensei eu.

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Encontro de 18/08/2020

RELATO
Sob o patrocínio da bibliotecária do CIC Esni Soares realizamos uma oficina via Meet. Gilberto Motta e Edna Merola coordenaram a pauta: um jogral, relatos sobre como cada um experimenta o processo de produção da escrita criativa, criação coletiva de um poema e produções individuais. 




ADENDO I: Produções individuais

1. Produções de Clara Amélia de Oliveira 
Alfarrábio

Alçou voo, levada pelo vento
Longe está esta palavra especial
Foi-se ... escafedeu-se
Antes popular e comum
Roída pelas traças do papel de cartas
Rompeu-se sílaba por sílaba
A tinta a precedeu nesta fuga veloz
Brandiu-se ao som seco de muitas páginas que caíram abraçadas com ela
Indo para tão longe, unidas por solidariedade ou identidade
Onde te encontrarás palavra especial?

Making Of da produção de Alfarrábio: Palavras Antigas

As palavras tem vida através de nós, dado que as armazenamos na memória, assim como também guardamos cenas de filmes e experiências importantes. Quais neurônios são responsáveis pela memorização da palavra? Pensando sobre isto durante horas não veio nenhuma palavra especial, que eu goste de guardar comigo. Dormi uma noite e, pela manhã, finalmente, ela apareceu. Alfarrábio. Uma palavra importante. Fui procurar seu significado exato pois só lembrava que se referia à papelada velha. Precisamente, se refere a livros antigos. Pejorativamente, se refere a livro velho e inútil. Interessante pois assim alguns jovens se referem a pessoas velhas, chamando-as de seu velho inútil. Lembrei da primeira vez que me identificaram como velha. Dei muita risada mas foi triste perceber o estado de desespero em que se encontrava o jovem que as proferiu. Estava com meu carro parado na sinaleira fechada e um poeta me ofereceu, para comprar, uma folha de xerox com sua poesia. Delicadamente recusei. Não tinha dinheiro trocado no momento. Ele ficou revoltado. Gritou para mim: sua velha idiota! Eu tive que rir da situação. Idealizamos poetas como românticos e sonhadores. Mas há os poetas estressados também. Isto faz uns bons anos já. Então sou o equivalente ao  alfarrábio, mas, humano. Porém, alfarrábio também tem o significado positivo possível. Livro antigo e precioso. Como os vinhos antigos, podemos dizer que temos nosso valor. De alfarrábio, o dicionário me ofereceu, de graça, a palavra calhamaço. Eu também guardei esta palavra e gostava de pronunciá-la. Para mim era quando pegava uma papelada. Um calhamaço de folhas. O dicionário diz que é o mesmo que alfarrábio. E, por fim, uma palavra, em uso ainda, mas, que me causou espanto, quando eu, já idosa, descobri que, durante todo meu passado, dizia errado. Coadjuvante. Li esta milhões de vezes, mas meu cérebro havia armazenado errado desde a primeira vez. Percebo que o meu cérebro, durante uma leitura, identifica uma palavra conhecida e fica na síntese. Ele não mergulha no detalhe da repetição por leitura das letras, ou sílabas, novamente. Hoje reconheço que estes mergulhos nos detalhes me estressam bastante. O detalhe é importante e, para muitas pessoas, ele é criativo e inovador. Mas eu tenho esta dificuldade de processar neste nível. E por eu ter uma certa dificuldade auditiva, em termos de processamento de conteúdo de fala. Assim, eu dizia co-ajudante, pensando que se tratava do ator de apoio num filme. Como não existia corretor na máquina de escrever antiga, nunca percebi o erro e também, nunca ninguém ouviu e percebeu meu erro. Atualmente, ainda tropeço com a língua nesta palavra mas estou melhorando. 

2. Produções por Edna Domenica Merola


Resposta ao poema Movimento de Gilberto Motta
Por Edna Domenica Merola

Eu vou levando
Com a calma rotineira
Com as mãos vou acenando
Acariciando o luar

Vou pesquisando
Com curiosidade faceira
Com o grupo partilhando
Aprendendo a twetar.

Absinto

Tendo por mote a palavra “absinto”
Evoco famosos:
Abdutor Verlaine
Abnegador Hemingway
Abjeto Gato Preto e o duplo de Pound,

No duplo terror sanitário de 2020,
Pressinto a ab gênese, até...
Parir palavras:
- Ab amar, ab afagar, ab aconchegar...
- Ab canto...
- Ab sinto...

Making of de AbsintoPoetagem pandêmica

Escolhi a palavra absinto porque sua primeira sílaba é travada como a do meu primeiro nome. Fui pesquisar sobre essa bebida e verifiquei que diversos autores canônicos a degustavam. Como não me passa pela cabeça, em hipótese nenhuma consumi-la, fiquei com vontade de beber novamente nas fontes dos escritores franceses tais como Verlaine e Mallarmé, e de outros de língua inglesa tal como Ernest Hemingway e Edgar Alan Poe. Após a escrita, percebi que grande parte do que escrevi durante o isolamento social teve por mote a própria pandemia ou algo a ela relacionado.

3. Produções por Clara Pelaez Alvarez

Lamento de uma brasileira sem eira

Se eu pudesse decretaria o revertátus.
Colêmbulos se apropriaram da pátria.
Axelhos crescem por todos os lados.
Neste momento cabuloso,
Tudo que eu queria era por um orobó
Naquele que orneia.
O quinhoeiro antigo virou bedegueba.
Um rapazelho mal ajambrado.
Um cabungueiro agarrado ao cabungo.
Um homem que só faz cacaborradas.
Orbitado por caçambeiros.
Virá o dia em que conseguiremos coleá-lo.
Cobri-lo de barrufadas e beiçoladas.
Metê-lo num cabrestilho e num tintureiro.
Do povo, ninguém escapa. 

Making of de Lamento de uma brasileira sem eira

Abri o dicionário (Aurélio) aleatoriamente e me diverti imensamente com palavras que não conhecia. Aí, sei lá como, algumas delas começaram a se entrelaçar e saiu isso: um texto que os algorítimos não vão rastrear.

4. Produções de Marlene Xavier Nobre

Ratatuia

Uma ratatuia invadiu aquele Palácio sombrio
O povo eclodiu,
ninguém sorriu.
Ficamos a ver navios
Cheios de dor, de frio e de calafrios.

Naquela rampa se esconde uma corja:
Verdadeira ratatulha
Contra a qual não há patrulha.
Sem molho, sem emoção,
aqui nessa nação (onde não tem pão)
todos gritam e ninguém tem razão!

Making of de RatatuiaPalavra ouvida na Infância
Ao escolher essa palavra tinha em mente a situação política do país. "Ratatulha" é o termo popular que ouvia, em criança, em Floripa, aplicada a pessoas que não eram boas. 

5. Produção de Brígida de Poli 


Palavras em Alvoroço

Minha mãe falava “algariados” quando os filhos faziam “algazarra”. Minha avó usava “alarido”. Minhas tias diziam “escarcéu” e “balbúrdia”. Meu tio intelectual foi o único que ouvi usar “azáfama”, linda como todas as proparoxítonas.
Mas minha favorita sempre foi “algaravia”, que eu pensava vir do espanhol, língua que amo. Mais tarde descobri que quem nos deu essa palavra apaixonante foram os árabes. E também soube que “algariados” de minha mãe nasceu de “algaravia”. E tudo fez sentido para mim. Desde então, dia sim, dia não, faço boca a boca e coloco no meio da frase:
- Algaravia, algaravia, algaravia.
E ela segue existindo.



ADENDO II
Criação conjunta espontânea em 18/08/2020

Ai que vida boa (1)
nessa pandemia à toa (1)
Acordei e vi no espelho (2)
uma senhora sem cabeleireiro, (2)
ai, ai, ai, assim não dá! (2)

Peguei um trem, (2)
Piui, piuuuí (1)
onde não tinha ninguém (2)
fiquei num vai e vem (2)
cha, cha, cha, chu, chu, cha, cha (1)

Sentei descalça na calçada, sempre boba... (1)
Olha a véia...ha, ha, ha. (1)
Ah! Ah! Ah! Uh! Uh! Ah! Ah! Ah! (2)

Quem diz ser genial seria? (1)
 - Será? Será? (1)
Só queria brincar de escrever... (1)
- Serei? Serei? (2)
Uh, uh, uh (1)
Só brincar... (1)
Há poetas que lembram guerreiros (1)
Ao invés de feitos nas batalhas (2)
contam conquistas de... (2)
- Palavras: travas e ouro. Amadas e odiadas. Posses de poetas. (1)

E o que o poeta quis dizer com: “...”? (2)
- "Não te amo como se fosses rosas de sal, topázios ou flechas de cravo que atiram chamas..." (Neruda) (3)
E em que a leitura da autora diverge da leitora? (2)
Eu, leitora, acho que a crônica da Brígida tem música que vem da alma, mas ela nega! (2)

Podria escribir los versos más tristes esta noche...
Como já dizia Neruda... (1)
“... embora seja a última dor que ela me causa e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo". (Citado por 3)

Fui no cemitério de palavras, elas não estavam lá. (2)
Procurei-as em Igrejas e templos (2)
Busquei nos cabarés (2)
No puteiro nacional do Cazuza, (2)
nas bocas das crianças esfaimadas, (2)
na lua, na terra, no mar (2)
Procurei palavras agonizantes nos hospitais, (2)
Nas ruas gélidas dos mendigos... (2)

Acabei encontrando-as vivas na minha memória. (3)
Todas desde as que ouvi no útero da minha mãe. (3)
Guardo-as como um tesouro, (3)
pois como disse o poeta e príncipe (3)
- " eu não vivo no passado, mas o passado vive em mim". (3)

Ouço o presente (2)
Há música na sirene da ambulância que passa (4)
quem sabe outra intubação (4)
Sons,  zumbidos (4)
E a emoção de viver para sempre em silêncio pandêmico (4)
Ao longe, o gato da vizinha mia, mia, mia. (4)

- Miado larápio! (2)
- Mas! Nem! (2)
Mas vi que as palavras estavam indo embora mesmo, (5)
saindo pelas folhas das florestas cortadas, (5)
se esfumaçando na poluição da atmosfera. (5)
Elas estavam indo embora, mas junto com o mundo todo. (5)
Sem o mundo não há sobreviventes, (5)
Nem mesmo palavras. (5)

No vídeo, os cães de amigos latem, latem, latem (2)
Encontrei-os pelo Meet, (2)
quis ouvir seus corações que batem, batem, batem (2)
à revelia da distância (2).

Não fossem as palavras (6)
vivas, quase vivas, mortas, quase mortas (6)
eu estaria morto (6)
tal qual o ar do cemitério (6)
tal qual a frieza das ruas (6)
tal qual o semblante da criança que não sou mais... (6)

Graças às palavras (6)
todas as coisas (6)
vivas, quase vivas, mortas, quase mortas (6)
(ainda) me compõem (6)
à revelia da distância. (6)


Autores
Clara Pelaez Alvarez (1)
Edna  Domenica Merola (2)
Ema Brígida de Poli (3)
Gilberto Pinto da Motta (4)
Clara Amélia Oliveira (5)
Fábio Dantas Amaral Lisbôa da Silva (6)


ADENDO III  Composição musical e letra
EM MOVIMENTO"
            Gilberto Motta

Vamos remando 
Se com barcos barqueando 
Se com braços bracejando 
Desafiando o flutuar 

Vamos sonhando 
Se com versos versejando 
Se com pragas praguejando 
Contra quem não quer pulsar 

Vamos rezando 
Língua solta estradando 
Destilada na maneira 
da nossa alma sangrear 

Vamos correndo 
Tropeçando movimento 
Braço a braço monumento 
Livre piroletear 

Que giro é este? 
Corpo torto zunzonzeira 
Que trava trevas canseira 
Pernas a fricotear 

Virá o dia:  destrambelhada carreira, 
em que o passo descompasso 
mundo redemoinhoará