quarta-feira, 4 de março de 2015

A Arte de Tecer Comentários (Internautas comentam Performance de Jovens "Guerreiros" Religiosos Cearenses). Edna Domenica Merola

Um periódico 'on line' divulgou reportagem que inclui vídeo que mostra um culto religioso ocorrido no Ceará (Brasil). O referido vídeo registra uma performance de um grupo de jovens organizados em forma de um batalhão do exército, dentro do culto.
Um jovem conhecido acessou esse material e me encaminhou. Iniciei a leitura mais por cortesia em relação a quem me enviou. Após a primeira leitura (que incluiu os comentários de várias pessoas), refleti sobre um fato que tem se tornado frequente... As postagens de comentários inflamados entre pessoas que certamente nem se conhecem. Partem de referenciais que muitas vezes não se conectam.
Segundo um internauta que comentou o lado ‘performático’ do ocorrido, a apresentação utiliza música do tipo medal of honor, isto é, são idênticas ou semelhantes às de um jogo eletrônico criado por Steven Spielberg no qual o jogador encarna um personagem. No caso, o personagem é um militar ou agente secreto estadunidense cuja missão é destruir os exércitos das Potências do Eixo. Essas eram inimigas dos Estados Unidos na Segunda Guerra do século XX.
O vídeo chamou a atenção de religiosos e de ateus que se pronunciaram em tom de indignação. Os primeiros pelo motivo de ferir os princípios religiosos e os demais por defenderem que o tal vídeo ridiculariza o exército da nação brasileira.
O tom de fanatismo inerente à performance referida suscitou comentários de internautas comparando-o tanto ao surgimento do nazismo europeu (início da terceira década do século XX) como ao fundamentalismo do Oriente nos dias de hoje (ou seja, após oitenta e cinco anos).
Dentre os comentários mais úteis destaco os que explicam o pensamento cristão que ‘prega’ a fraternidade e não as ‘armas’. Ou seja, o Evangelho propõe a negação de si mesmo e a fé em Jesus como Salvador e na mensagem da Cruz. O Evangelho Cristão aponta o caminho para a vida Eterna, ou seja, para a vida espiritual.
Um equívoco foi o de um comentarista que confundiu o Torá com o Alcorão. E ao tentar escrever Torá ou Torah ou Tora escreveu tora (com letra minúscula significa porção ou pedaço. Por exemplo, de uma árvore.).
A performance dos jovens guerreiros foi comparada a uma ação de fundamentalistas. Seria necessário recorrer a pronunciamentos feitos em entrevistas a autoridades religiosas e especialistas na leitura do Alcorão. Pelo que tenho lido ou ouvido desses especialistas, o Alcorão não manda ninguém praticar 'terrorismo' religioso.  
A maioria dos cristãos propaga que a Bíblia foi escrita por 40 autores diferentes, num período de quase 1600 anos. Segundo essa tradição, os livros do Antigo Testamento teriam sido escritos entre 1500 e 450 A.C. Já os livros do Novo Testamento datariam do período entre 45 e 90 D.C.
Desta feita, ao usar o vocábulo 'bíblia' é necessário especificar, como no exemplo: "evangelho segundo João". 
Lembrei-me desse exemplo porque João afirma que a grande novidade trazida por Jesus é o Amor. (Que bom que João disse isso. Mas que ruim que essa 'boa nova' ainda continua uma grande novidade para o mundo contemporâneo.).
Lembrei-me desse exemplo sobre a grande nova que é o Amor, pois sou da geração que tinha por mote PAZ e AMOR. Pregava-se o amor para substituir a participação na Guerra do Vietnã ou Guerra Americana ‒ ocorrida no Sudeste Asiático entre 1955 e 30 de abril de 1975. 
Eu usava mamadeira e havia essa guerra.
Depois eu dançava rock e havia essa guerra. 
Depois eu cantava na roda de samba da universidade e havia essa guerra... 
Os artistas e os estudantes eram tratados como hippies e isto era sinônimo de ser tão imprestável como um desertor da guerra. Mas não podíamos dizer ou escrever nada contra isso.
Hoje podemos! Cabe sabermos usar o poder... Cabe estimarmos essa oportunidade e nos estimarmos ao escolhê-la.
Recomendo que internautas ao pensarem em fazer comentários, primeiro se acalmem. E se autoestimem. Só escrevemos de forma compreensível se nos sentirmos bem ao fazê-lo. Dialogar deve gerar prazer!
Não vale usar as palavras como armas, já que queremos combater essa descrença que pesa sobre o Estado em sua responsabilidade de manter a vida civil em sua normalidade: paz entre os povos como direito coletivo primordial, direitos individuais que incluem a liberdade de culto e a de expressão.
Vale lembrar que vivemos numa sociedade pós-moderna onde ficção e realidade se misturam. Muitas vezes a ficção é nociva para a realidade como os jogos em que crianças assumem virtualmente o comando de um exército. Para que ensiná-los a atacar os demais países? Para que incitá-los a se defender, se não estão sendo atacados? Para que incutir um espírito belicoso ao invés de ensinar a busca do equilíbrio para o enfrentamento das dificuldades reais que a vida nos apresenta?
Como está escrito na  Constituição Federal Brasileira somos um estado laico. Portanto, no Brasil, não existe nenhum estado evangélico, nem espírita, nem católico, nem muçulmano, nem israelita. 
Mas se uma performance dentro de um culto religioso pode nos lembrar do nazismo e do fundamentalismo é porque algo está caminhando fora dos trilhos constitucionais e é de certa forma alarmante.
Para defender a concepção de um estado laico é preciso investir na Escola Básica pública.
Pense na educação pública como um direito coletivo básico... Pense nisso com carinho, ainda que não seja professor, ainda que não tenha filhos, ainda que se os tivesse não necessitaria da escola pública (ou pensa que não iria necessitar...).
Espero que os internautas continuem discutindo e dialogando. E que aceitem as pequenas contribuições que deixei aqui sobre a arte de tecer comentários...
Na época da ditadura brasileira, assisti, num teatro da cidade de São Paulo, a uma montagem de Brecht em que os algozes machões do Esquadrão da Morte eram representados numa dança com trejeitos afeminados...
Nos anos de chumbo, usava-se o riso para denunciar... Isso funcionaria agora, num contexto de 'bate-boca' entre internautas? 
Parece que a arte pessoal de tecer comentários pela paz consistirá em defender amorosamente o próprio ponto de vista ao invés de guerrear contra o ponto de vista alheio.
O que é defender amorosamente? 
Defender é para a hora do risco... Caso contrário é paranoia. 
Abaixem as armas, pois a guerra dos jovens cearenses ainda é ficcional, embora o medo que a performance inspira seja verdadeiro. (Será que vão bancar soldados do exército ao sair do culto? Será que aviltarão as leis vigentes ?)
O ato de amar é mais fácil de entender: implica na existência de pelo menos duas pessoas, implica em diálogo, implica em vínculo, em constância, em perseverança. E que mais? 
Só você tem essa resposta... 


domingo, 15 de fevereiro de 2015

Diálogos sobre a Crônica 'Sexta-Feira Treze'. Edna Merola, Nestor Rech, Sandra Souza, Valda Valdemar, Amaridis Mello, Eslávia Hugentobler, Léa Silva.

Escrever é simplesmente registrar o que vivemos? Deve-se avaliar a utilidade de uma narrativa ou sua beleza? Histórias ensinam comportamentos e atitudes? Histórias são puro entretenimento? É possível desvelar intenções do (a) autor(a) tomando apenas o texto? É preciso recorrer a dados biográficos do autor, para entender seu texto? 
Sandra, Nestor, Valda, Eslávia, Léa, Amaridis escreveram suas interpretações sobre a leitura de Sexta-Feira Treze. Edna escreveu em respostas observações que tocam alguns tópicos da teoria literária: ficção e realidade; catarse e leitura; emoção e razão na literatura, 'destinatários' do texto e 'ensino' de valores.

Para entender os diálogos abaixo, leia antes, no blog Aquece a Escrita,  a postagem Sexta-feira Treze, de Edna Domenica Merola. No link: 

http://blogspot.com/2015/02/sexta-feira-treze-edna-domenica-merola.html


SANDRA: Oi, Edna. Bonita tua história com H de sexta-feira 13. Toca fundo no coração tua relação com teu pai. A gente cresce e aprende muito com essas vivências que nos acompanham a vida toda. ?
EDNA: Oi, Sandra, minhas crônicas misturam ficção com realidade. Mas o amor pelo meu pai é verdadeiro como você bem percebeu ao ler essa crônica do livro No Ano do Dragão.  (O amor pela minha mãe está retratado em outro trecho do mesmo livro).
ESLAVIA: Obrigada por dividir com a gente. No teu jeito espontâneo, querendo brincar com a própria sorte, sem esconder as sequelas.
EDNA: Na minha experiência como escritora acabo usando recursos do psicodrama o que dão um tom realista aos personagens. Acredito que nenhuma escritora esconde sequelas. No meu caso, por exemplo, uma sequela evidente é a dos estudos que faço desde 1982 e que imprimiu essa marca de ‘viver’ a ação (drama) do personagem com verdade. Esse processo pode vir a gerar catarse, ou seja, é libertador em potencial. Acredito que a catarse que ocorre pela leitura é fruto da identificação do leitor com algo que ele escolhe (no texto) para abrir canais de sintonia com a criação de outrem. 
LÉA:  Não podemos deixar de imaginar as "sextas 13"! Elas nos revelam alegrias, tristezas e algo mais que devemos aprender: o amor e a superação para uma vida melhor. Achei muito linda a história do teu pai e a tua participação foi fantástica.
EDNA: As aprendizagens do campo da ética por meio da leitura são por conta do leitor. Não há texto que garanta que uma lição será extraída por todos que lerem. A “superação para uma vida melhor” é uma decorrência da leitura (no nosso exemplo essa leitura foi feita pela Léa).
ESLAVIA: Desejo que vivas muitas sextas-feiras treze ainda com ensejos bem mais positivos.
EDNA: Oi, Eslávia, agradeço e retribuo seus votos. Faço-o por escrito, num contexto de comunicação onde fica informado que nos conhecemos e interagimos socialmente (isto é realidade compactuada). Já a escrita literária é representação da realidade. Portanto, não é idêntica à realidade. Duas pessoas diferentes poderão representar um fato ocorrido de maneiras totalmente diferentes. Isto quer dizer que mesmo a representação de um fato ocorrido pode não ter por referência uma única realidade compactuada. Mas se as representações feitas por diferentes sujeitos forem semelhantes, a referência tende a ser vista como a realidade compactuada.
NESTOR: Parabéns, professora Edna! Não tem dia ruim contigo, mesmo sexta 13. Linda crônica, memórias do coração.
EDNA: A expressão "memórias do coração" (se não me engano) foi cunhada por Nestor. Como Nestor bem disse "memórias do coração" estão incluídas na crônica Sexta-Feira Treze.
Pude constatar que a representação textual que fiz do amor filial (em Sexta-Feira Treze) encontraram ecos nas representações das pessoas. A partir daí fiquei muito feliz com as observações expressas, já que o amor filial é um tema pertencente à humanidade.
Algumas “memórias do coração” se fazem presentes em minhas obras: No Ano do Dragão (2012) assim como em A Volta do Contador de Histórias (2011) e De que são feitas as Histórias (2014).  
No entanto, as minhas crônicas misturam fatos inventados com fatos que vi ou vivi e que conto do meu jeito (cada contadora teria sua versão). 
Não sou historiadora, minhas crônicas podem retratar 'um tempo', mas não 'a verdade instituída' sobre esse tempo.
AMARIDIS: Como sempre, adorei ler um pouco de sua juventude e de seu carinho,  e senti seu cuidado em atender todos os sentimentos que sabia que iria agradar e acalmar seu maravilhoso pai. Entendi, que para você o dia treze  foi a partida... Para o Melhor Caminho - caminho da LUZ - da PAZ. Tenho certeza de que ele ficou muito feliz pela sua lembrança...
EDNA: A partida para o caminho da Luz é a interpretação dada por Amaridis sobre a morte que separa pai e filha. Trata-se de uma inferência pautada na religiosidade da leitora. Mas não resta dúvida de que o texto sustenta um tom de homenagem póstuma ao mencionar o sofrimento terminal do pai que ‘descansou’ na madrugada da sexta-feira treze.
AMARIDIS: Entendi, que pra você o dia treze foi a partida... Para mim, tenho sempre um pé atrás... Sinto um GATO PRETO que me atrapalha. Coisas da vida, amiga.
EDNA: A expressão sexta-feira treze que é o título do texto remete ao ‘gato preto’, a algo que atrapalha e que deixa com um pé atrás. No texto, isso é ilustrado pelo relato de duas perdas de intensidades diferentes: a de um amor platônico e a do pai. A primeira parece funcionar como um ‘truque narrativo’ para dar ênfase à segunda.
O idealismo no sentido de termos fé em nosso poder de persuadir leitores ou ouvintes por meio de histórias é bem interessante. Vivemos num mundo em que (na maioria dos casos) os pais não são mais os heróis de seus filhos. Mas não há porque abandonar a minoria que pode ainda usufruir de sentimentos como o do amor filial.
Desta feita, para essa minoria dedico Sexta-Feira Treze
A minoria que cultiva o apreço e o amor entre familiares, a meu ver, está prestes a ser relegada. A sociedade atual, dessa forma, parece viver sua sexta-feira treze.
VALDA: Sexta feira treze: ano do dragão[...] tudo terminou com a perda do seu pai, mas também começou a sua história de vivência de valores, pela compreensão de que seu pai venceu o dragão[...] e se despediu feliz, por ter uma filha que ele admirava e amava muito. Parabéns, Edna! Você foi muito especial para seu pai! Foi mais uma história maravilhosa de vida, de amor e de saudade! Sexta- feira Treze: seu pai e você venceram o dragão!
EDNA: No horóscopo chinês, o Dragão é associado ao que nunca cessa de encantar a imaginação. Sua leitura sobre o amor paterno e filial “como uma história maravilhosa de vida, de amor e de saudade” é por isso bastante válida no sentido de buscar símbolos universais num texto literário.

REFERÊNCIA


MEROLA, Edna Domenica. Sexta-Feira Treze. In: No Ano do Dragão. Florianópolis: Postmix. 2012. P 31.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Sexta-feira Treze. Edna Domenica Merola.

Houve uma sexta-feira treze em 1974... Andava de namoro com Pedro. Rapaz baixinho, de cabelos pretos e lisos, com olhos puxados, ainda que ocidentais. Íamos a cinema e teatro, líamos livros em voga. Com o grupo de amigos em comum, que agregava jovens professores paulistas e paulistanos, vasculhava o que tinha de lazer na cidade de São Paulo. A escolha dos passeios era liderada pelos mais velhos. E dessa forma, como mascote do grupo, achava aquilo tudo muito brega, mas instigante.
Fomos a apresentações de cantores, dentre as quais minha memória destaca a de Nélson Gonçalves, numa cantina no bairro do Ipiranga. Fomos às casas de samba que se espalhavam pela Avenida Ibirapuera. Fomos a uma peça teatral curiosamente montada em circo instalado no centro da cidade. Ao teatro municipal ouvir a Orquestra Sinfônica. Ao casamento de amigos num salão de festas na Moóca.
E houve o dia em que ele foi me visitar em casa e conversamos, no portão. Ele não pediu para falar com meu pai e nem para ficarmos noivos sem avisar a família, como faziam alguns amigos à época. Não me fez nenhuma proposta sedutora ou amorosa. Revelou-me sua opção sexual e sua paixão por Fernando.
Houve outra sexta-feira treze em 1984... Que começou bem antes.
Meu pai estava gravemente doente desde as primeiras horas do dia primeiro de janeiro de 1982, quando fora vítima de um Acidente Vascular Cerebral.
Sofreu muito durante os dois anos e meio que passou no leito. A psicomotricidade fina lateral direita fora afetada, assim como toda a parte verbal. Quando não acompanhava a leitura em voz alta que eu fazia de seu livro preferido, advertia com adequado sinal para que interrompesse. Localizava-se perfeitamente no tempo e entendia imagens, acompanhando programas de TV.
Apontava para a porta ao entardecer, aos sábados. À época, o governo obrigava os postos a encerrarem suas atividades de maneira a não vender combustível nos finais de semana, contendo o consumo. Meu pai apontava a porta para que eu me lembrasse de deixar o tanque do automóvel cheio. Respirava aliviado, quando eu pegava a chave do carro. Quando eu regressava, ia ter com ele que me sorria com o olhar: que era o modo como podia. Brincava com ele, associando gestos à fala para dizer que o carro já tinha ido ‘dormir’.
No dia doze de julho de 1984, eu estava de férias e combinara, via telefone, com uma colega de um curso de especialização ministrado na capital que iria visitá-la na cidade litorânea onde ela residia.
Mas o dia seguinte foi a sexta-feira treze de 1984, na qual tive de me despedir de meu pai. Por volta das quatro horas da manhã, ele se foi para sempre. Finalmente, descansou.
Outras tantas sextas-feiras treze ocorreram. Não me lembro delas.
– Melhor não prestar atenção!
A vida seguiu: muitos dias felizes vieram... Construí minha carreira e constituí minha família.
Hoje é sexta-feira treze, do mês de janeiro do Ano do Dragão.
Comecei um novo curso de uma nova modalidade de prática corporal! É sempre bom estar em forma para poder enfrentar as surpresas que a vida nos reserva, perante as quais, algumas vezes, só nos resta balançar os ombros, relaxar e superar.


REFERÊNCIA

MEROLA, Edna Domenica. Sexta-Feira Treze. No Ano do Dragão. Florianópolis: Postimix. 2012. P 31.




Domingo, 15 de fevereiro de 2015.
Diálogos sobre a Crônica 'Sexta-Feira Treze'. Edna Merola, Nestor Rech, Sandra Souza, Valda Valdemar, Amaridis Mello, Eslávia Hugentobler, Léa Silva.

Escrever é simplesmente registrar o que vivemos? Deve-se avaliar a utilidade de uma narrativa ou sua beleza? Histórias ensinam comportamentos e atitudes? Histórias são puro entretenimento? É possível desvelar intenções do (a) autor(a) tomando apenas o texto? É preciso recorrer a dados biográficos do autor, para entender seu texto?
Sandra, Nestor, Valda, Eslávia, Léa, Amaridis escreveram suas interpretações sobre a leitura de Sexta-Feira Treze. Edna escreveu em respostas observações que tocam alguns tópicos da teoria literária: ficção e realidade; catarse e leitura; emoção e razão na literatura, 'destinatários' do texto e 'ensino' de valores.


SANDRA: Oi, Edna. Bonita tua história com H de sexta-feira 13. Toca fundo no coração tua relação com teu pai. A gente cresce e aprende muito com essas vivências que nos acompanham a vida toda. Né?
EDNA: Oi, Sandra, minhas crônicas misturam ficção com realidade. Mas o amor pelo meu pai é verdadeiro como você bem percebeu ao ler essa crônica do livro No Ano do Dragão.  (O amor pela minha mãe está retratado em outro trecho do mesmo livro).
ESLAVIA: Obrigada por dividir com a gente. No teu jeito espontâneo, querendo brincar com a própria sorte, sem esconder as sequelas.
EDNA: Na minha experiência como escritora acabo usando recursos do psicodrama o que dão um tom realista aos personagens. Acredito que nenhuma escritora esconde sequelas. No meu caso, por exemplo, uma sequela evidente é a dos estudos que faço desde 1982 e que imprimiu essa marca de ‘viver’ a ação (drama) do personagem com verdade. Esse processo pode vir a gerar catarse, ou seja, é libertador em potencial. Acredito que a catarse que ocorre pela leitura é fruto da identificação do leitor com algo que ele escolhe (no texto) para abrir canais de sintonia com a criação de outrem.
LÉA:  Não podemos deixar de imaginar as "sextas 13"! Elas nos revelam alegrias, tristezas e algo mais que devemos aprender: o amor e a superação para uma vida melhor. Achei muito linda a história do teu pai e a tua participação foi fantástica.
EDNA: As aprendizagens do campo da ética por meio da leitura são por conta do leitor. Não há texto que garanta que uma lição será extraída por todos que lerem. A “superação para uma vida melhor” é uma decorrência da leitura (no nosso exemplo essa leitura foi feita pela Léa).
ESLAVIA: Desejo que vivas muitas sextas-feiras treze ainda com ensejos bem mais positivos.
EDNA: Oi, Eslávia, agradeço e retribuo seus votos. Faço-o por escrito, num contexto de comunicação onde fica informado que nos conhecemos e interagimos socialmente (isto é realidade compactuada). Já a escrita literária é representação da realidade. Portanto, não é idêntica à realidade. Duas pessoas diferentes poderão representar um fato ocorrido de maneiras totalmente diferentes. Isto quer dizer que mesmo a representação de um fato ocorrido pode não ter por referência uma única realidade compactuada. Mas se as representações feitas por diferentes sujeitos forem semelhantes, a referência tende a ser vista como a realidade compactuada.
NESTOR: Parabéns, professora Edna! Não tem dia ruim contigo, mesmo sexta 13. Linda crônica, memórias do coração.
EDNA: A expressão "memórias do coração" (se não me engano) foi cunhada por Nestor. Como Nestor bem disse "memórias do coração" estão incluídas na crônica Sexta-Feira Treze.
Pude constatar que a representação textual que fiz do amor filial (em Sexta-Feira Treze) encontraram ecos nas representações das pessoas. A partir daí fiquei muito feliz com as observações expressas, já que o amor filial é um tema pertencente à humanidade.
Algumas “memórias do coração” se fazem presentes em minhas obras: No Ano do Dragão (2012) assim como em A Volta do Contador de Histórias (2011) e De que são feitas as Histórias (2014). 
No entanto, as minhas crônicas misturam fatos inventados com fatos que vi ou vivi e que conto do meu jeito (cada contadora teria sua versão).
Não sou historiadora, minhas crônicas podem retratar 'um tempo', mas não 'a verdade instituída' sobre esse tempo.
AMARIDIS: Como sempre, adorei ler um pouco de sua juventude e de seu carinho,  e senti seu cuidado em atender todos os sentimentos que sabia que iria agradar e acalmar seu maravilhoso pai. Entendi, que para você o dia treze  foi a partida... Para o Melhor Caminho - caminho da LUZ - da PAZ. Tenho certeza de que ele ficou muito feliz pela sua lembrança...
EDNA: A partida para o caminho da Luz é a interpretação dada por Amaridis sobre a morte que separa pai e filha. Trata-se de uma inferência pautada na religiosidade da leitora. Mas não resta dúvida de que o texto sustenta um tom de homenagem póstuma ao mencionar o sofrimento terminal do pai que ‘descansou’ na madrugada da sexta-feira treze.
AMARIDIS: Entendi, que pra você o dia treze foi a partida... Para mim, tenho sempre um pé atrás... Sinto um GATO PRETO que me atrapalha. Coisas da vida, amiga.
EDNA: A expressão sexta-feira treze que é o título do texto remete ao ‘gato preto’, a algo que atrapalha e que deixa com um pé atrás. No texto, isso é ilustrado pelo relato de duas perdas de intensidades diferentes: a de um amor platônico e a do pai. A primeira parece funcionar como um ‘truque narrativo’ para dar ênfase à segunda.
O idealismo no sentido de termos fé em nosso poder de persuadir leitores ou ouvintes por meio de histórias é bem interessante. Vivemos num mundo em que (na maioria dos casos) os pais não são mais os heróis de seus filhos. Mas não há porque abandonar a minoria que pode ainda usufruir de sentimentos como o do amor filial.
Desta feita, para essa minoria dedico Sexta-Feira Treze.
A minoria que cultiva o apreço e o amor entre familiares, a meu ver, está prestes a ser relegada. A sociedade atual, dessa forma, parece viver sua sexta-feira treze.
VALDA: Sexta feira treze: ano do dragão[...] tudo terminou com a perda do seu pai, mas também começou a sua história de vivência de valores, pela compreensão de que seu pai venceu o dragão [...] e se despediu feliz, por ter uma filha que ele admirava e amava muito. Parabéns, Edna! Você foi muito especial para seu pai! Foi mais uma história maravilhosa de vida, de amor e de saudade! Sexta- feira Treze: seu pai e você venceram o dragão!

EDNA: No horóscopo chinês, o Dragão é associado ao que nunca cessa de encantar a imaginação. Sua leitura sobre o amor paterno e filial “como uma história maravilhosa de vida, de amor e de saudade” é por isso bastante válida no sentido de buscar símbolos universais num texto literário.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pra que poemas? Edna Domenica Merola.

Pra que Poemas? 
                      Edna Domenica Merola

Poemas são pipas de rima
Subindo em cordão
Metáfora em balão:
ilumina meu véu,
levanta seu céu.
Poemas são ícones de esperança,
Na luz,
Na solidão,
Na quietude,
na escuridão.
Ainda há pena,
Ainda há papel:
- É possível idealizar-concretizar vida
E quando se apague
O que se vê por fora
Que brinquem
Em minh’ alma
Versos introspectos
Para que possa cantá-los,
Em seus ouvidos.
Para que possa tocá-los,
Em meus ouvidos.

E assim, no encontro,
Uma nota musical
Acresce um ponto
À melodia Universal.

(MEROLA, Edna Domenica. Cora, Coração. Nova Letra. 2010. P 187-188)


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"Onde andará o meu doutor?" Edna Domenica Merola

Exibindo DSC08069a.jpg
SEMANA DE PROJETOS DE EXTENSÃO DA UFSC, 30/10/2014


Perdi um sarau importante para o meu coração “por conta de umas questões paralelas”...
Não, não tem nada a ver com repressão política-ideológica... Os versos são do Chico, mas o problema é só meu...
Meu e de toda a população de idosos do Brasil...
Pois é. Aconselharam-me a me divertir, a cantar, a escrever poemas. Fiz (e faço) isso direitinho inclusive numas oficinas que ministro! Só que chegou o grande dia em que os alunos iriam apresentar suas produções poético-autorais e tive de comparecer a uma consulta compulsória.
É isso! Um aluno até pensou que tivesse de comparecer a uma audiência jurídica na qual um representante do convênio seria a parte acusada... Mas não era! Era uma simples consulta, mas que foi marcada pelo S.A.C. e não tive direito a escolha de horário. Sempre que ligo para tentar agendar uma consulta médica, respondem que só daqui a 90 dias ou mais... Em seguida, peço para alguém ligar e dizer que é agendamento particular e daí tem horário a escolher!
Sou aposentada e faço trabalho voluntário uma vez por semana! Mas parece que os quatro demais dias da semana que folgo coincidem também com as folgas dos que atendem aos conveniados da tal prestadora.
Tudo isso me fez rever um antigo PPS. Nele uma paciente relembra o antigo médico da família. Mas depois descreve como tudo agora mudou. E apresenta um Doutor que também está sofrendo e que não responde suas perguntas... Que a assusta com tantos pedidos de exames para poder dar um diagnóstico...
 Enviei o tal PPS para pessoas 'maduras' como eu, avisando que lessem quando tivessem tempo. Uma delas me respondeu logo em seguida e emendou sobre o médico retratado no PPS: 
‒ E se continuar viva para precisar dele outra vez... Só marcando pelo SAC...
E quando isso ocorrer ele lhe dirá:
‒ Olha aqui, minha paciente, minha paciência já acabou!
 E ela provavelmente lhe responderá:
‒ Escuta aqui, ‘ô seo doutô’, sem paciência estou eu! Está me escutando? Eu pago plano de saúde e não consigo marcar consulta... E o senhor só me pede exame sem saber o que vim fazer aqui?
E o doutor responde:
‒ Desculpas, senhora... Mas comigo acontece a mesma coisa.
Lembro então da frase de Chico Xavier: Não há problema que não possa ser solucionado pela paciência.
Lembro-me da frase de Chico Xavier... E teço a certeza de que meu doutor deve andar no Nosso Lar... Pois por aqui, não o tenho visto "não sinhô"!
A pergunta que não quer calar vai além de: "onde andará o meu doutor?". 
A pergunta que não quer calar é: “onde andará a compaixão"? Entendem do que trata a psicanalista Melanie Klein ao cunhar o conceito de "compaixão"?
‒ Leram Melanie Klein?
‒ Leram? 
‒ Leram! Embora por em prática, minha gente!

Making off: 
Essa crônica foi escrita após leitura e envio de um PPS de título: "Onde andará o meu doutor". O texto do PPS citado é de autoria da médica Tatiana Bruscky e slides de Ria Slides. 
Após o envio houve a resposta em e-mail dada por Amaridis que, embora não tenha sido transcrita literalmente no texto supra, inspirou o diálogo entre a paciente e o doutor.
O final da crônica cita o filme "Nosso Lar" pautado na obra literária homônima cuja autoria declarada é a psicografia. Naquela obra o personagem central é um médico que 'desencarna' devido à falta de autocuidados (era fumante e morre em decorrência disso). Na outra vida, num espaço espiritual denominado Nosso Lar passa a exercer a assistência e o cuidado que transcendem as técnicas e incluem o afeto e demais dons do espírito.

Diálogo entre Edna e Ivan Bach sobre o texto "Onde Andará o meu doutor?”

Ivan: Deliciosa postagem mostrando que as dores (da costela e de ter perdido o Sarau) não diminuíram seu bom humor.
A propósito de humor, tenho um amigo poeta nordestino que sempre escreve "humour" e eu sempre sinto vontade de perguntar por que, mas tenho pudor em escancarar minha ignorância e assim sigo não sabendo o porquê.
Edna: Definições de humour (dada pelo dicionário Francês do Google): Substantivo. Faculté d’apprécier les éléments amusants, absurdes ou insolites de la réalité. "Elle a le sens de l’humour."
Seu amigo nordestino provavelmente era da elite brasileira que falava o que era 'chic' só em francês para os 'criados' não entenderem ou não imitarem...
Hoje os motoboys paulistanos entendem inglês facilmente.
Mas é interessante analisar como, atualmente, os galicismos não são mais considerados relevantes. No entanto, há algumas décadas atrás a presença social das “mocinhas francesas” na cultura brasileira foi assim cantada:
“Há muito tempo nas águas da Guanabara/O dragão do mar reapareceu/
Na figura de um bravo feiticeiro/A quem a história não esqueceu/ Conhecido como o navegante negro/Tinha a dignidade de um mestre-sala/
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas/Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas/Jovens polacas e por batalhões de mulatas" (O Mestre-Sala Dos Mares.).
Na década de setenta, minha mãe teve uma empregada doméstica que falava:
Hoje estou de 'bom amor', ao invés de bom humor...
(Sábia, não é mesmo? Não tinha escolaridade, não aprendeu francês... Mas fazia um lindo trocadilho entre as palavras humor (humour) e amor  (amour)... Até parece que consultou o meu Larousse (do qual tirava o pó diariamente). Parece que leu Freud (também na minha estante)! Mas não leu! Apenas sabia viver a vida e amar!



terça-feira, 14 de outubro de 2014

O teu lugar aqui na minha mesa, tua cadeira ainda está vazia. Edna Domenica Merola.

CARTA EXTEMPORÂNEA:

A um aluno cordato e gentil,

"Chinesinho", enfim vou me despedir de você. Sei que Deus o recebeu de braços abertos para você inaugurar uma escola de poesia no céu. Imagino que agora quem coordena esses trabalhos é você. E imagino que essa escola é bilíngue. E que lá todos o respeitam: Anjos, Anjinhos e Anjões.
Todos lá são cuidados e assistidos ao mesmo tempo em que são cuidadores, isto é, amparam aos demais.  Todos comungam em criação.
Por alguns anos você sentou em uma das tantas cadeiras ocupadas por aqueles a quem chamei de alunos e que me dedicavam o respeito que era de praxe, à época, sentir pelos professores. Em especial, pela professora que incentivava o aluno a escrever sobre o que ele gostava: poemas sobre a natureza.
Você ocupou sua cadeira de aluno, mas me ensinava o tempo todo de forma mágica e calada.
Pelos seus comportamentos usuais sei que não foi autor de sua saída de cena à revelia da marcação do Diretor. Sei que não teve culpa e que conduzia sua bicicleta com cautela naquela hora fatal.  Sempre foi comedido e disciplinado...
Eu sei, pois observei você atentamente durante anos. Sempre respondendo com estilo próprio.
Imagino que não gritou quando o carro o atingiu. E que nem teve tempo de ver o seu matador.
Creio por isso que o motorista daquele automóvel estava alcoolizado ou drogado.
Só quero lhe dizer que sua cadeira, nas salas de aulas que ocupei durante anos seguidos ainda tiveram algum substituto ou outro. Mas depois foram escasseando. Até que notei que ela deixara de ser preenchida...
E depois que não seria... Preenchida aqui, assim, por algum adolescente que escreva poemas cheios de seres naturais e harmônicos como você escreveu em sua breve vida, outrora.
Hoje percebi que “teu lugar aqui na minha mesa/ tua cadeira ainda está vazia”.
Pois a terra continua cheia de motoristas pródigos. E de vidas secas que clamam por presenças poéticas.
As relações entre as gerações virou caso de estatutos: primeiro o ECA e depois o dos idosos... 
Você bem sabia de meu idealismo de jovem professora... E confesso ainda sou ligada na luta pela justiça, pela ética e pelo amor ao próximo. Conto com seu testemunho em minha defesa quando chegar a vez de ventos pródigos me abaterem.
Conto também com que recomende minhas palavras em forma de preces em sua escola de Poesia e de Presença na Casa do Nosso Grande Pai: que nasçam crianças plenas de luz para virarem jovens poetas e preencherem "o teu lugar na minha mesa" de escrita poética para múltiplas idades!


Making Of

Esse texto foi escrito no intervalo de uma aula em forma de oficina de um curso sobre saúde do qual a autora do texto participou enquanto aluna. O tema foi a relação entre dois sujeitos, a saber: um profissional de saúde e uma pessoa que precisa de cuidados.
A oficina iniciou pelo trabalho do contato pelo olhar e encerrou com excelentes materiais teóricos sobre o cuidado. 

SOBRE O PERSONAGEM 'CHINESINHO'
Foi inspirado em um adolescente paulistano e que era filho de chineses. O jovem cordato, inteligente, geralmente calado, mas participativo, foi aluno (de Língua Portuguesa) da autora do texto,  na cidade de São Paulo. Escrevia poemas cheios de luz. Faleceu aos dezesseis anos, na década de oitenta do século XX. 

SOBRE O QUE É NARRADO E DESCRITO
Foi inspirado na profissão que a escritora exerceu profissionalmente e ainda exerce como voluntária. 
A autora trabalhou (durante dez anos) numa escola próxima a uma enorme avenida que liga bairros como Ipiranga e Vila Mariana à Rodovia dos Imigrantes. Nesse período, três alunos faleceram, sendo dois por atropelamento enquanto se locomoviam com bicicletas. Na frente do prédio da escola não havia ponto de ônibus como costuma ocorrer, embora fosse uma região de supermercados e motéis.

SOBRE O TÍTULO DO TEXTO
Esse título é citação de versos (da música de Lupicínio Rodrigues) que remontam a uma perda sofrida por abandono, em vida. 
No texto aqui postado, algumas perdas são mencionadas: a do aluno adolescente morto por um motorista alcoolizado, a do aluno que respeita sua mestra, a do poeta, a da poesia. Mas principalmente, a perda do contexto de encontro 'dialógico' no qual duas pessoas interagem como sujeitos, à revelia de terem ou não maiores ou menores poderes.