sábado, 1 de agosto de 2020

Encontro "delas por elas"

À princípio, nós (antigas colegas de ateliê de escrita realizado na Biblioteca do CIC, em 2019), queríamos nos rever, mas estávamos em isolamento físico social e, portanto, recolhidas a nossos lares. 
Reservamos um link numa plataforma digital e marcamos um horário. Nosso encontro ganhou nova luz com a realização de uma criação coletiva. Isso nos ajudou a dar a largada na prática de encontros à distância (e por meio digital) como um grupo tarefa.
Essa criação coletiva iniciou às 17 hs e 50 minutos e terminou às 19 hs e 51 minutos.
Foi feita via chat concomitante às falas espontâneas das participantes, já que a pauta do encontro era “nos vermos”.
Após relatar algo sobre o making of, transcrevo (2) a produção grupal:

Isolada, mas ligada em tantas almas amigas (1)
Isla, insula, em Floripa confinada (2)
ligadas pelo coração e pelo amor às palavras (3)
amando vocábulos numa ilha de afetos (2)
construindo, descobrindo novos caminhos (1)
Caminhando sobre o desconhecido e sob a solidão (2)
Pintei de azul como a casa de Frida Khalo, como o manto de Maria, como os teus olhos... (3)
daquele azul do mar que me conduz 
até 
hoje... (4)


Florianópolis, 01/08/2020
Marlene Xavier Nobre

Mais que ouro, esse nosso encontro
Um achado para o tempo que uniu
A mil pelo Brasil.

Juntas trocamos, afetos, dividimos alegrias, recitamos poesias.
Salvos. Estamos vivos, somos distintos
Trocamos informação, falamos de oração. (Não faltou doação).

Um encontro e tanto:
o tempo passa e o afeto não acaba
por aquelas que nos deixam marcas prazerosas:

- Mulheres fortes, almas brilhantes.

Clara Amélia de Oliveira é engenheira, professora aposentada pela UFSC (5). 
Edna Domenica Merola, pedagoga e psicóloga, mestre em Educação e Comunicação, participa de Lendo Cinema https://netiativo.blogspot.com/2020/07/lendo-cinema-ix.html (de Brígida de Poli); de Textos Curtos da Biblioteca do CIC (com Gilberto Motta e Esni Soares); das aulas sobre música popular brasileira ministradas por Alberto Gonçalves. Autora do livro As Marias de San Gennaro, Coleção Palavra de Mulher, Editora Insular https://insular.com.br/produto/as-marias-de-san-gennaro/ (2). 
Ema Brígida de Poli é jornalista, cronista, cinéfila, colunista do Portal Making Of  http://portalmakingof.com.br/cine-e-series . Simpatizante e voluntária em prol dos direitos e do bem-estar de refugiados. Idealizadora e mediadora do Lendo Cinema, autora do livro As Mulheres de Minha Vida, Coleção Palavra de Mulher, Editora Insular https://insular.com.br/produto/as-mulheres-da-minha-vida/ (3)
Marlene Xavier Nobre é autora do livro Lembranças e Esperanças de uma mulher, Coleção Palavra de Mulher, Editora Insular https://insular.com.br/produto/lembrancas-e-esperancas-de-uma-mulher/ . (6)
Yara Hornke, psicóloga, trabalha em prol dos direitos e do bem-estar de presidiários (1)
Zuleide Gonzaga  é farmacêutica, criadora e mantenedora do blog /https://serenando.com.br/author/zuleidegonzaga/  (4)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Trovas. Edna Domenica Merola

Quadrinha de São João

Ontem fiz quentão paulista 
(com pinga, no lugar do vinho).
Saudade na minha lista.
Que bom era nosso ninho.

Fiz pipoca na panela 
Batata doce assada
Pra curar saudade dela 
Que partiu, irmã amada!

São João e Sampa

São Paulo é do café
Do metrô e das cachaças.
Ipiranga com São João
E gentes com suas graças!

Milagroso São João
Acode meu coração:
Ajude nossos paulistas
A ficar em suas casas!

Quadrinha para Oleni Oliveira Lobo

Com o Santos Criativa
Um projeto valoroso
Unisanta na ativa
Faz junho mês precioso. 

Quadrinha para Gilberto Motta

“Paraíba Criativa”

Junho, julho no nordeste

Amigo Gil, na ativa

Ele é cabra da peste! 


Trovas da Sinhá Edna

Pandemia: só lembranças
De junho, velhas festanças
Feito tranças de menina
Que de chita imagina.

No nordeste, a querela:
Boto pegava faceira
Dava filho pra donzela
No sul, quadrilha, fogueira...

Casamento sob trabuco
Pipoca, pinhão, sabugo
Batata assada no chão:
Recordo do tempo bão!


Invente sua cidade

                                      Edna Domenica Merola


Em três décadas, teremos

Maioria de idosos.

Pobre Brasil! (Temeremos).

Sem viventes vigorosos.

 

Sem verbas para pesquisa,

Com imprensa Pós Verdade,

Que joga povo na brisa,

Comunicando já tarde.

 

De trabalho, hoje é dia,

Do projeto de Nação

Doença não é brinquedo,

Nem se ataca com canhão.

 

Foque na resolução:

Reúna a comunidade,

O Conselho Cidadão.

- Invente sua cidade.

 

Controle resiliente,

Com a função solidária

Respeito ao semelhante

É vitória sanitária!

 

No amor leal verdadeiro       

(grave bem esse refrão!)

o cuidado vem primeiro,

desperta seu coração.

domingo, 7 de junho de 2020

Pandemia, Pós Pandemia. Brígida De Poli. Clara Amelia de Oliveira. Edna Domenica Merola. Marlene Xavier Nobre.

O AMOR NOS TEMPOS DA PANDEMIA
BRÍGIDA DE POLI

Seu cabelo branco brilhava ao sol que atravessava o vidro da janela. “Vó, como a senhora conheceu o nono?”- perguntei. Ela se acomodou na cadeira de balanço, sorriu e contou como se fosse a primeira vez. “ Em 2020, enfrentamos uma terrível pandemia. Não havia remédio ou vacina contra o vírus. A única forma de evitar o contágio era o isolamento. Foi difícil ficar sem trabalhar, sem ver os amigos e muito menos sua bisavó”.
Fez uma pausa e continuou: “em um dia de tédio vi no prédio em frente um homem limpando os vidros da janela. Achei graça: “aquele lá tem jeito de quem nunca fez isso antes”. De repente, ele
olhou na minha direção e abanou. Notei que era alto e tinha um sorriso largo.
Na manhã seguinte, lá estava ele na sacada. Dessa vez levantou um cartaz: qual seu whatsapp?. Depois de hesitar, escrevi meu número em uma placa. Entre aquele gesto e agora, nasceram seu
pai, seus tios e você, minha querida”. O olhar se perdeu novamente em direção ao prédio da frente. Suspirou profundamente e adormeceu.

Brígida De Poli é autora de As Mulheres da Minha Vida, pela Editora Insular http://loja.insular.com.br/product_info.php/cPath/114/products_id/1199

A escritora é gaúcha, reside em Florianópolis há 30 anos, é jornalista com atuação em rádio, jornal e televisão. Na RBS TV-SC foi produtora, chefe de reportagem e coordenadora do Núcleo de Atendimento à Globo, durante 17 anos. Assina uma coluna semanal sobre cinema e séries no Portal Making Of. É professora voluntária junto a imigrantes e refugiados.

Em As Mulheres da Minha Vida, a autora nos apresenta aquelas que fizeram a sua cabeça no decorrer de sua vida. São mulheres que se destacaram em várias modalidades culturais como Oriana Fallaci (jornalista); Lina Wertmuller (diretora de cinema); Clarice Lispector e Adélia Prado (escritoras); Elis Regina, Mercedes Soza e Billie Holiday (cantoras), Ingrid Bergman e Leila Dinis (atrizes), Frida Kahlo (artista plástica), Simone de Beauvoir (filósofa); Winnie Mandela (líder política).


27/05/2020
CLARA AMELIA DE OLIVEIRA
Relato Curto - A Saga Brasileira e Japonesa para sair da França durante a Pandemia

Sabe-se que o Japão é um território sujeito a catástrofes naturais, tipo terremoto e tsunami, e outras possíveis, como a causada por, opção energética japonesa, pela Energia Nuclear. O fato é que a população parece ter algum tipo de treinamento para fugir de situações de perigo ou catástrofes. Um caso interessante foi o do estagiário japonês, colega de minha filha, em certo Restaurante de um Hotel numas Termas ao sul da França. A pandemia do Coronavírus obrigou o restaurante a fechar e os estagiários foram sendo repatriados. Minha filha estava trabalhando há trinta dias quando recebeu a notícia do fim do estágio. Mas, seu colega japonês havia chegado no Estágio há apenas dois dias.  Ele estava morando no mesmo endereço da minha filha. E naquela madrugada, ela viu uma luz acesa e supôs que ele estivesse acordado. Pela manhã, todos ficaram surpresos com o sumiço do Japonês. Isto porque, sair daquele local naquele momento de pânico geral, demandava um certo esquema pois não há estação de ônibus ou trem, e a cidade mais próxima fica a cerca de 60 km ou 1 hora de carro daquele Hotel. No caso da saída da minha filha, o táxi encomendado pelo Hotel se recusou a fazer a corrida e o Chef Confeiteiro do mesmo, teve que ajudar, levando-a até a cidade de Pau, onde ela tomou um trem lotado para a cidade de Lyon. Chegando lá, a Diretora Geral do Programa de Estágios a acolheu, e assistiu, até o dia do voo para o Brasil. Ela indicou o metrô para o deslocamento até o Aeroporto de Lyon. Porém, a cada dia, aumentava o isolamento e o Metrô parou de funcionar. A Diretora foi pessoalmente levar a Estagiária no Aeroporto. Em Paris, no Aeroporto Charles de Gaulle, apenas quatro Voos partiram naquela noite de 21 de março. Sim. Quatro Voos. E o Japonês? A Diretora ficou sabendo que ele já se encontrava em sua casa, no Japão. Ninguém sabe como, com que ajuda ele contou, porque, na França, ele mal havia chegado há apenas dois dias. Parece um ótimo exemplo da prontidão japonesa. Um fenômeno mesmo. 


Clara Amelia de Oliveira é formada em Engenharia Química – UFRGS. Pós graduada (Mestrado e Doutorado) em Engenharia de Produção, área Mídia e Conhecimento. Professora Aposentada de Matemática Computacional e Programação em Computadores no Depto. de Informática e Estatística do Centro Tecnológico da UFSC. Trabalhou 12 anos com turmas exclusivas de estudantes repetentes em Programação de Computadores, de onde desenvolveu uma tese de doutorado com uma proposta educacional integrativa.
Dedicada à área Educacional e ao Treinamento Pedagógico para Professores da Área Tecnológica. Ministrou Workshops e Palestras, e tem Publicações na Área Educacional referente ao Ensino de Engenharia e Computação (Brasil-São Paulo,
Estados Unidos, Porto Rico, Irlanda, Alemanha, Espanha, Portugal, Finlândia, Noruega, Letônia, Eslováquia, República Checa, Hungria, Argentina, Peru).
Recebeu o prêmio INTERTECH Award (International Conference on Egineering and Technology Education) em 2008 e 2010.
Revisora de trabalhos de pesquisa de Conferências Internacionais na área da Educação Tecnológica : iNEER Annual Book e ICEE (USA), CLEI (America Latina), WEI (Brasil), e outros.
Publicações Literárias:
Em 2000, participou do Concurso de Contos e Poesias organizado por Arnaldo Giraldo –SP, Livro : 500 Outonos de Prosa e Verso – Conto, Poesia e Crônica. Publicou quatro poesias: Apollinaire no Jardim/ Biblioteca/ Meu anjo/ Filha.
Em 2002, participou do Concurso de Crônicas que resultou no livro : A UFSC na Minha História- 40 Anos da UFSC. Crônica publicada intitulada : UFSC – 40 Anos: Fragmentos, Memórias, História.
Em 2019, participou do Atelier da Escrita da Biblioteca do CIC – coordenado por Rosi Bergamaschi.
Em 2020, participa da página do Facebbok "Oficina Experimental de Textos Curtos" da Biblioteca de Arte e Cultura - CIC, com Edna Domenica Merola e Gilberto Motta.


26/04/2020
– Apenas um aceno! 
                                Edna Domenica Merola.

           Primeiro foi a fase da negação. Repetia o slogan: um dia por vez. Não ouvia notícias sobre números de casos e mortalidade, apoiava todas as medidas de quarentena, mas não podia aderir a ela. Entenda que neguei que aquilo poderia me atingir, pois fazia um bom tempo que não me expunha a aglomerações para lazer. Os contatos sociais que exercia como provedora dos cuidados com a família não poderiam me prejudicar... (Você já fez esse tipo de contrato com Deus? Pois é, eu tive!).
Toquei o barco com disposição de Ulisses. Daí veio a primeira vizinha me oferecer ajuda, disse-me que, por ser idosa, deveria permanecer em casa.
– Queriam-me Penélope, à revelia de Ulisses!
Você que se achava porta-estandarte, sacou a sensação de pertencer à ala das baianas?
E veio mais outro vizinho (agora pelo watsapp), e mais outros... Você que recentemente se conformara com sua nova posição na Escola de Samba começou a sacar a sensação de ser uma recém nascida prematura?
De repente numa incubadora! (Ainda que fosse um apartamento ensolarado e ventilado, com direito a avistar o verde.).
Uma sensação de impotência me invadiu. De súbito, pequenas coisas do cotidiano tornaram-se enormes dragões.
– Depressão?
– Não, falta de sol!
Fui na varanda pra tentar contemporizar essa vida de Penélope. Acenei para o único ser vivente que vi do lado de fora.
Perguntou-me se queria ajuda.
– Sim  respondi. – apenas um aceno solidário.


Passamos a frequentar nossas varandas nos dias subsequentes, com o sol da manhã.
No primeiro dia, só acenou. No segundo, escreveu uma mensagem num cartaz. E assim procedeu nos outros dias para exibir as mensagens de apoio à permanência na quarentena. Certo dia, usou um megafone para mandar sua alegre mensagem. Noutro dia, dedicou uma música para a senhora da varanda.
Até que ele desapareceu por alguns dias. Será que voltara a passar o dia em seu local de trabalho? Ou adoecera?
Então numa manhã apareceu sem megafone. Fez sinal de silêncio, voltou pra dentro e retornou com um cesto de bebê. Escreveu no cartaz a melhor mensagem de otimismo:

– É menina, o nome dela é Vitória.

Edna Domenica Merola é mantenedora dos blogs Aquecendo a Escrita, Netiativo, Netiamigo,  Rede Pró Educação e Cultura de Idosos. É autora de livros de crônicas, poemas e contos, dos quais destaca As Marias de San Gennaro, da série Palavra de Mulher, Editora Insular.

Florianópolis, 27/05/2020
MARLENE XAVIER NOBRE
Convivência no meu quadrado


Confinado neste quadrado

Me sinto um solitário

Só olho da janela do quarto ,assustado ,cheio de medo, perdido no tempo , eu choro ,não sei o que faço ,tudo é incerto, me sinto refém desse vírus às soltas nas ruas

Estou privado de tudo e de todos

Estou clamando pela minha liberdade

Sinto -me uma criança sem colo

 Perdi o sentido

não sei mais qual foi o último dia que fui caminhar na rua,  conversar com a vizinha

Não sei quando volto a me encontrar com o mundo lá fora

É tudo estranho!

Não sou mais o mesmo

No meu lar padeço todas as dores

Neste momento me sinto sozinho

Não vejo olhares

Faz tempo que  vejo a quem mais  amo  só por vídeo chamada .

Será que me esqueci de orar ?

Ou não soube amar ?

Ou será que o universo devolveu tudo aquilo que joguei no ar

Estou cansado de esperar todo esse pandemônio parar de infernizar .

Será que vai demorar ?

Ou  logo vai terminar ?



Será que este mundo obscuro um dia vai clarear?


Florianópolis,14/05/2020

MARLENE XAVIER NOBRE

Pós Pandemia


Como um bom  filho, retorno ao mundo fortalecido e revigorado. E recomeço num mundo novo onde tudo foi regenerado (assim espero!).

Naquele universo no qual o homem não enxergava o outro ser  vivente, correntes de ódio geraram relações típicas de guerras civis e consolidaram os piores vícios em nome da autossatisfação. Cansei de ser perverso. Quero deixar pra trás as mazelas e os ranços. Voltar por inteiro: novo, reciclado, repaginado.

Quero ser o meu melhor dentre os humanos e que não me falte amor, mesmo que ninguém veja a minha mudança.  A lição vivida valeu a pena, mesmo a duras penas.

Neste reencontro comigo e com o novo, quero conservar os amigos antigos. Junto deles, fazer tudo o que estiver ao meu alcance.

Quero ser mais paciente, ter mais bondade, mais caridade. Saber ouvir, dividir cada momento e, a todo instante, ser mais constante. Estender as mãos, ter mais devoção (somos todos irmãos, sem distinção).

Se nada fiz em vãos dias, não quero seguir de mãos vazias. Quero ter mais cuidados com Mãe Natureza e os animais. Levar alegrias. Irradiar paz.

Em cada passo dado, quero sentir a leveza. Quero ver mais sorrisos soltos e abraços sinceros.


O mundo não será mais o mesmo: uma nova era nos espera.

Marlene Xavier Nobre nasceu em Florianópolis ‒ a bela ilha da magia ‒ numa família de artistas e de carnavalescos, desfilou por várias vezes nos carros alegóricos e de mutações. Fez os carnavais de 2011 e 2012. Foi presidente da sociedade carnavalesca Granadeiros da Ilha. É artesã, dedica-se a trabalhos manuais, bolos artesanais e pintura em tela. Gosta de música, teatro, cinema. E dedicou sua vida para a formação da família. Escrever é o seu único vício. Participou do livro Memórias Compartilhadas  nos itens Memórias de Simone, Cartas das Autoras e dos Autores, Cartas em Posfácio.
É autora dos livros A Meus Queridos Netos  e Lembranças e Esperanças de uma Mulher ( vol 12. Série Palavra de Mulher, Ed Insular).



domingo, 26 de abril de 2020

– Apenas um aceno! Edna Domenica Merola.

Primeiro foi a fase da negação. Repetia o slogan: um dia por vez. Não ouvia notícias sobre números de casos e mortalidade, apoiava todas as medidas de quarentena, mas não podia aderir a ela. Entenda que neguei que aquilo poderia me atingir, pois fazia um bom tempo que não me expunha a aglomerações para lazer. Os contatos sociais que exercia como provedora dos cuidados com a família não poderiam me prejudicar... (Você já fez esse tipo de contrato com Deus? Pois é, eu tive!).
Toquei o barco com disposição de Ulisses. Daí veio a primeira vizinha me oferecer ajuda, disse-me que, por ser idosa, deveria permanecer em casa.
– Queriam-me Penélope, à revelia de Ulisses!
Você que se achava porta-estandarte, sacou a sensação de pertencer à ala das baianas?
E veio mais outro vizinho (agora pelo watsapp), e mais outros... Você que recentemente se conformara com sua nova posição na Escola de Samba começou a sacar a sensação de ser uma recém nascida prematura?
De repente numa incubadora! (Ainda que fosse um apartamento ensolarado e ventilado, com direito a avistar o verde.).
Uma sensação de impotência me invadiu. De súbito, pequenas coisas do cotidiano tornaram-se enormes dragões.
– Depressão?
– Não, falta de sol!
Fui na varanda pra tentar contemporizar essa vida de Penélope. Acenei para o único ser vivente que vi do lado de fora.
Perguntou-me se queria ajuda.
– Sim  respondi. – apenas um aceno solidário.


Passamos a frequentar nossas varandas nos dias subsequentes, com o sol da manhã.
No primeiro dia, só acenou. No segundo, escreveu uma mensagem num cartaz. E assim procedeu nos outros dias para exibir as mensagens de apoio à permanência na quarentena. Certo dia, usou um megafone para mandar sua alegre mensagem. Noutro dia, dedicou uma música para a senhora da varanda.
Até que ele desapareceu por alguns dias. Será que voltara a passar o dia em seu local de trabalho? Ou adoecera?
Então numa manhã apareceu sem megafone. Fez sinal de silêncio, voltou pra dentro e retornou com um cesto de bebê. Escreveu no cartaz a melhor mensagem de otimismo:

– É menina, o nome dela é Vitória.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Uma coleção. Edna Domenica Merola.





Está cada vez mais difícil manter os pertences organizados, primando pelo perfume, pela ausência de poeira e pelo brilho. No entanto, não pretendo me desfazer agora de alguns deles pelos significados acumulados. É o caso da prateleira de vidro em formato de “L” com a coleção de bules. Alguns deles me acompanham desde que saí da casa de meus pais e mobiliei a minha primeira morada particular.
Os bules que foram das minhas avós têm histórias bem diferentes. Minha avó materna o ganhou de um pretendente de minha mãe que foi rejeitado por esta por se achar muito nova para deixar a mãe. O da minha avó paterna era usado para guardar moedas que só foram achadas depois de seu falecimento.
Uma peça que foi de um conjunto de chá de minha mãe lembra-me a mesa repleta de louças, pães, café com leite, irmã, primos e primas. Outro de minha mãe, mais delicado, recorda-me a grande cristaleira que havia na sala de jantar da casa de meus pais.
 Lembro-me de que adquiri o bule de estanho em uma viagem às cidades históricas de Minas Gerais, na década de 1970. Na década seguinte, foi a vez da aquisição de dois bules de cerâmica de uma mesma artesã: uma mãe de aluno da escola onde lecionava.
Em meados da década 1990, após as mortes dos sogros de minha irmã, quatro bules remanescentes – ausentes suas xícaras e pires correspondentes – foram por mim acolhidos. Em seguida, minha irmã me presenteou com duas peças uma em cada data diferente.  No final daquela década, uma grande amiga paulistana me deu de presente um bule tipo japonês comprado, provavelmente, no bairro da Liberdade.
Em 2018, a filha daquela amiga paulistana me presenteou com uma peça feita por um artista plástico de Santo Antonio de Lisboa, em Floripa.
Em meados de 2019, avisei aos mais próximos que a coleção estava encerrada. A partir daí as lembranças dos fatos que envolvem esses objetos proliferaram, assim como detalhes a imaginar sobre as narrativas incompletas. Como foi a vida amorosa do pretendente rejeitado por minha mãe?
No jantar de hoje, olhei os bules na prateleira: herança das matriarcas as mais corajosas e competentes... E continuei a comer e a conversar...
Olhei novamente os objetos e das superfícies impermeáveis escorriam cheiros,  cores e texturas daqueles perfis femininos... Personagens introjetadas que dançavam sobre a minha cabeça.
Olhei ainda mais uma vez para a prateleira em busca dos objetos. Agora pousavam na minha mesa. Degustavam da nossa comida. Intrometiam-se em nossa conversa. As peças amealhadas eram, então, as verdadeiras, as reais anfitriãs.


Tudo o que existe no mundo material ocupa uma posição socioeconômica, habita um lócus histórico-político, realiza um potencial DNA. Por sua vez, a materialidade humana, como hoje é conhecida, se insere na relação mundo-universo em que pesam as concepções da Física Quântica.
Se tomarmos por objeto de análise uma coleção de bules cuja peça mais antiga data da primeira década do século XX e a última da segunda década do século XXI, podemos ilustrar algo sobre a relação mencionada.
A referida coleção passou por quatro moradias, sendo três na zona sul da capital de SP e uma na capital de SC. Parece querer manter sua vocação para habitar lugares históricos, já que iniciou no bairro do Ipiranga em São Paulo e, hoje, se aloja no Saco dos Limões em Florianópolis.
Essa coleção de bules expressa prerrogativas tais como o direito à propriedade e à herança, direito de ir e vir, ter cidadania, preservar memórias, manter laços familiares, usufruir do prazer estético.

A sobrevivência da coleção de bules como iniciativa e patrocínio pessoal denota que no período de tempo referido houve certa paz civil no Brasil, à revelia do ostracismo, exílio ou morte dos que militaram por um país melhor e da mortandade por fome de grande parte da população. Num contexto de guerrilha urbana, a colecionadora foi protegida pelo acaso e sobreviveu, mantendo o sentido dessa reunião de objetos domésticos que hoje repousam esteticamente em Floripa.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Oficina Sala Verde, em 24/9/2014

Jogo de Autoapresentação: redigir autoapresentação por meio de colagem de letras de música. Usar por roteiro o inventário de interesses:
      Nome. Idade. Natural de...
    Indicar música que:
      Mencione sua terra natal 
      Faça menção a sua época de infância 
      Expresse sua vida atual
Indicar cantor e cantora preferidos.

Exemplificamos com o inventário de interesse da participante 1: 

Ela me conta, sem certeza, tudo o que viveu:
‒ Eu tenho cicatrizes mal curadas. E não consigo me enquadrar mais. Mas ainda assim me acordo cada manhã /Me preparo para o que está reservado/ Para o que está reservado para mim. (Prison Blue)
Ela me conta, sem certeza, tudo o que viveu:
‒ Que gostava de política em 1966... Ou foi 2006?
‒ Mina de Niterói, / Cadê tua turma? Se não tem, se enturma. Dá teu jeito, então. Sei que a saia é justa. Pra cair não custa, basta um tropeção. Cuidado com a mão da maldade. Já mataram a verdade. Me marcaram o coração... E eu não li no jornal Que o mal dessa gente miúda / É fazer da palavra luminoso punhal. Menina Vai viver a vida Firme e decidida, como Deus bem quer.
Menina, ela me conta, sem certeza, que era atriz e hoje dança... Me falou que o mal é bom e o bem cruel. Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/ Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão! /
‒ Oh! Dia Feliz! Oh! Dia Feliz! Se o sol se recusar a brilhar, Eu ainda estarei amando você. Se as montanhas desmoronarem no mar, Ainda haverá você e eu.  /Apenas o pensamento de você, só de pensar em você /Acontece todo o meu mundo, acontece todo o meu mundo/Apenas o pensamento de você, só de pensar em você /Apenas o pensamento de você/ Acontece meu nebuloso mundo inteiro, azul enevoado
/Meu amor é forte... Inspiração: olhar pra ver. E assim, hoje, meu mundo sorri./Tudo bem, yeah! Felicidade... Não mais ser triste / Felicidade... Eu estou feliz. 
Ela me conta, com certeza, tudo o que aprendeu.

Jogo de relaxamento e imaginação dirigida sobre a audição e a primavera.
Posição confortável. Respiração profunda. Olhos fechados. Preste atenção aos ruídos que consegue ouvir além de minha voz, nessa sala. Procure ouvir sons que vêm de fora da sala. Preste atenção aos ruídos que vêm de longe... E daqueles de muito longe. Agora parta em direção ao local em que nasceu. Imagine que voa, ou navega ou percorre o caminho a pé com muita agilidade. No caminho ouve sons específicos desse trajeto e ouve nitidamente. Agora você se aproxima do local onde nasceu, mas fantasticamente, percebe que o tempo retrocedeu e hoje é o dia em que você irá nascer... Faltam alguns minutos para isso... Você ouve os sons de dentro de um ventre humano... No interior do ventre materno você começa a ouvir os ruídos que preparam sua expulsão de um local para ganhar outro espaço... Observe bem esses sons e o ritmo deles. Você está entrando no mundo e ele é para você a sua nova melodia. Embale-se nessa música. Acalente-se... Preste atenção aos sons da sala ou aposento onde se encontra. Ao ritmo da respiração das pessoas, ao som da voz das pessoas, ao som do manuseio dos objetos, ao volume das conversas. Isso incomoda você ou não? Você ouve o seu próprio choro de bebê... Percebe um ritmo? Uma melodia? Uma cadência? Comunica algo específico? Ou não? Agora você sai do prédio onde nasceu e observa os sons que acontecem em volta... Observa os sons um pouco mais longe... Procura o barulho do ar e repara se é brisa ou vento ou vendaval? Procura o barulho da água: é rio? É mar? É lagoa? É apenas um poço? É uma caixa dá água? Procura onde há música: é um grupo de pessoas cantando? É uma banda? É alguém tocando um instrumento? É um rádio? É uma vitrola?
Você ouve assim uma música que nunca ouviu antes e fica feliz com isso e aprecia sua beleza e originalidade.
Faça esse registro sonoro que agora é seu. Registre!
Quando pensa que já ouviu toda a beleza sonora uma surpresa o aguarda...
É a voz de Zéfiro, o deus do vento do oeste, ou seja, o mais suave. ... E ele não está sozinho... você ouve também a voz de Flora, a fada que reina sobre as flores dos jardins e também dos campos cultivados. Flora oferece a você sementes de inumeráveis variedades de flores. E você ensina as abelhas a recorrerem às flores para fabricar o mel. Você pode se dedicar à proliferação de boas sementes e expansão da beleza, da harmonia, da renovação. Pode cuidar do plantio e da fertilidade do solo... Pode reproduzir, criar, habitar e preservar no solo... sua percepção pode captar o acaso quando ventos soprarem a lhe trazer novidades ou a mudar abruptamente o curso de sua vida... Você é capaz de aceitar o acaso e de ser companheira (o) que à semelhança do mel impregna de doçura o curso de vida de seus semelhantes. Você é rico de potenciais e em suas mãos passam sementes que vai distribuindo em sua caminhada.
Cria com liberdade autêntica ou primaveril que gera renovação infindavelmente...

Jogo usando Internet:
Perguntar se no Brasil inteiro há as quatro estações ou não. Haverá primavera em todo o Brasil? E em toda SC?
Indicar os links das músicas que você pesquisou (do Tom) que falam sobre a natureza.
Coletar versos sobre a relação humano  versus natureza.  
Identificar categorias de análise e refletir sobre elas. 
Exemplo: os versos de Rubinho do Vale poderiam pertencer à categoria "denúncia endereçada às crianças" (futuras gerações serão responsáveis...)?

Versos
Autor
Link
"A fauna à flora implora:
‒ Não podem mais derrubar madeira".
Rubinho do Vale

 Sabiá
Tom e Chico
Águas de Março
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
Jobim
Boto
Jobim
Passarim
Jobim
Borzeguim
Jobim
Tropicana
Alceu Valença
Curiá.
Urucum na Cara
Arrastão
Edu Lobo