sábado, 25 de maio de 2019

Palavra de Leitora: Gilberto Motta e A Crônica de Sábado. Edna Domenica Merola


Palavra da leitora. 
Sou leitora de A Crônica de Sábado criada (e mantida) pelo cronista Gilberto Pinto da Motta. Dentre os inúmeros motivos que me levam a gostar cada vez mais das crônicas de Gilberto Motta nomeio um que é a observação de preciosas chaves de leitura. 
Uma primeira chave é a temática. É complexa no autor, mas vamos abrir brechas, com cuidado, assemelhando o trabalho da leitora ao da arqueóloga.

A excelente crônica MUITO ALÉM DO ACONCÁGUAdisponibilizada em 02/06/2019  https://www.facebook.com/gilberto.pintodamotta/posts/164873557867962 instigou-me a refletir sobre o jogo da vida. O humano que busca concomitantemente a aventura e o recolhimento no Eterno. É preciso escolher caminhos, enfrentar enigmas para atravessar passagens, alcançar metas e ter a sensação de chegada (ainda que na partida!?).

Em 25/5/2019, leitores ganharam o texto Cânticos para ninar pirados e piradas, disponibilizado em: 

O título Cânticos para ninar pirados e piradas acumula sentidos:

1- cânticos bíblicos. Esse sentido foi associado a uma frase que funciona como epígrafe:“Existirá mesmo a felicidade eterna, meu querido? Talvez nem exista essa tal...". Frase que questiona a vida eterna. Uma vez que, nos textos bíblicos, a eternidade é inquestionável, estabelece, assim, um paradoxo. 

 2- os cânticos da Bíblia são atribuídos a um rei poeta. E é por meio dos cânticos que a poesia é capturada. Desta feita, a narrativa dessa crônica se sustenta pelos efeitos.

3- Na minha leitura, associei cânticos ao momento político brasileiro em que se usa e abusa do nome de Deus e se invoca benesses para "os escolhidos". 

4- No texto, cânticos comparece como sinônimo de cantiga de ninar (para pirados e piradas). 

5- a enumeração "em cânticos" refere a cenas ou "tomadas" de um filme (vida que imita a arte).

6- cânticos lembram as epopeias como  a Ilíada, a Odisseia, Os Lusíadas. Daí leio um convite para refletir sobre o(s) herói(s) dessa crônica ambientados num lugar heroico decadente.

7- a crônica foi subdividida em sete cânticos. A Numerologia aponta que o número sete relaciona-se ao sucesso o que tem tudo a ver com o filme Assim Caminha a Humanidade , referido na crônica, cujo elenco reúne os famosos Rock Hudson, Elisabeth Taylor e James Dean.

A crônica Cânticos para ninar pirados e piradas narra uma morte passional num cenário urbano, de lazer/cultura decadente. Os personagens são pintados com cores e traços fortes, evocando certa pluralidade que difere daquela do personagem tipo (peculiar da estética romântica). Não aprofundo esse tema porque isso demanda uma ancoragem em diversas crônicas do autor. No momento, apenas faço um convite:

Convido a tod@s,
para leitura das crônicas  Muito Além do Aconcágua, Cânticos para ninar pirados e piradas e as demais dos sábados anteriores. 
Aposto que descobrirão outras chaves de leitura para saborear os textos dos sábados vindouros.





terça-feira, 2 de abril de 2019

Virada março/abril de 2019. Edna Domenica Merola.

            Bilhete 10 – Boituva, 29/03/2019 – Felicidade

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar. (1)
               
Aqui ontem ventou. Hoje: sol com brisa sem maresia. Ouço grilos e talvez cigarras... Serra de cortar grama e barulho de rodovia. Sinto a paz que se avizinha de um sentimento que sugere algo que poucos brasileiros acreditam ter, hoje: a tal da felicidade. Desemprego e desconstrução das políticas públicas de inclusão social? Diria o poeta que “a felicidade [...] parece/ A grande ilusão do carnaval/A gente trabalha o ano inteiro/Por um momento de sonho/Pra fazer a fantasia./De rei ou de pirata ou jardineira/E tudo se acabar na quarta-feira”. (1).
“A felicidade é como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranquila/Depois de leve oscila/ E cai como uma lágrima de amor” (https://www.vagalume.com.br/tom-jobim/a-felicidade.html   ). 
O que tem de melhor nela é que sonhar com a felicidade nunca é demais. Fito, por exemplo, o Sidney Magal. Não dança mais, mas ainda sonha com a Cigana Sandra Rosa Madalena e quer vê-la sorrir, e quer vê-la cantar, quer “ver o seu corpo, dançar sem parar”. (https://www.letras.mus.br/sidney-magal/67750/)
 E fito a mim também. “Sonhei que um dia eu era” uma trovadora, “dos velhos tempos que não voltam mais. Cantava assim a toda hora/ As mais lindas modinhas” (https://www.letras.mus.br/altermar-dutra/292074/) de um tempo de outrora.
No meu sonho, era uma menestrel e me dava o cognome de Bendita, já que estou fora da questão de maldizer...
 ‒ Ah! Vai! E nem sou nariguda!
No sonho, meu jovem nome é Ana Maria e moro na Alameda da Poesia.
“Nesta noite de luar”, sonho “sonhos cor do mar”... (https://www.letras.mus.br/juca-chaves/46712/)
“O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito”. (https://www.letras.mus.br/dorival-caymmi/45583/)
Sinto o canto da noite/ Na boca do vento/ Fazer a dança das flores/ No meu pensamento. [...] Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu”. (https://www.letras.mus.br/maria-bethania/47244/)
Ser feliz é “sentir o valor de se ter liberdade/ [...] E sentir o calor, de uma grande amizade”. Repito como um mantra: “isso é a felicidade, isso é a felicidade. [...] (https://www.letras.mus.br/os-incriveis/452631/) E pergunto se a pessoa feliz: é quem “se molha de chuva, suor e cerveja...”? (https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43870/). A felicidade só ocorre “nos lençóis macios... Travesseiros soltos, roupas pelo chão? ( https://www.vagalume.com.br/roberto-carlos/os-seus-botoes.html). Ou apenas “com muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender? (https://www.letras.mus.br/ivan-lins/922790/).
Só sei que “se me lembro dela me dá saudade” (https://www.ouvirmusica.com.br/francisco-petronio/1434216/).
“Que saudade da professorinha que me ensinou o beabá”... (https://www.letras.mus.br/ataulfo-alves/84080/).
Que saudade dele subindo “a Rua Augusta a cento e vinte por hora” (https://www.letras.mus.br/ronnie-cord/1650682/).
Pena que a saudade morava ainda “debaixo dos caracóis dos teus cabelos e uma história pra contar de um mundo tão distante”. (https://www.youtube.com/watch?v=DzJXvEPzxLM).
Felicidade: elle est éclose un beau matin/ au jardin triste de mon coeur (cha lá, lá, lá, lá/ lá, lá,lá! https://www.vagalume.com.br/salvatore-adamo/f-comme-femme-traducao.html). Passado o tempo em que "a felicidade trazia os olhos do destino", fiquei mais feliz quando incluí na dieta diária “banana, menina! Tem vitamina. Dadi/dadidadi/dada!). (https://www.vagalume.com.br/ney-matogrosso/yes-nos-temos-bananas.html).
A felicidade está solta quando cresce a esperança (lá lá lá) (https://www.youtube.com/watch?v=p_rhqMZn7SE) de quem sabe faz a hora não espera acontecer (https://www.letras.mus.br/geraldo-vandre/46168/).
A felicidade é alguém caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, num sol de quase”  abril, “pra ver a banda passar, cantando versos de amor. (https://www.youtube.com/watch?v=WL8l8olaMmI)
Cravos felizes “já murcharam em tua festa, pá/ Mas certamente/Esqueceram uma semente em algum/ Canto de jardim” (em https://www.letras.mus.br/chico-buarque/45178/).
A felicidade é O Sol nas bancas de revistas, que enche de alegria e preguiça... (https://www.youtube.com/watch?v=WL8l8olaMmI). Um mar que não tem tamanho/ E um arco-íris no ar. (https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/80508/)
Será que o único jeito de encontrar a tal da felicidade é esperar uma eternidade, em frente ao coqueiro verde? Mas eu vou-me embora/ Vou ler o meu Pasquim/ Se ela chega e não me vê/ Sai correndo atrás de mim. (https://www.letras.mus.br/erasmo-carlos/45772/).

Apesar de você... Apesar de você... Apesar de você. 


Referências por ordem em que comparecem no texto de Edna Domenica Merola

(1) JOBIN, Tom. MORAES , Vinicius de. A Felicidade. Disponível em
(2) MAGAL, Sidney. Sandra Rosa Madalena. Disponível em https://www.letras.mus.br/sidney-magal/67750/
(3) AMORIN, Jair. GOUVEIA, Evaldo / Perfomance de Altemar Dutra. O Trovador. Disponível em https://www.letras.mus.br/altermar-dutra/292074/
(4) CHAVES, Juca. Por Quem Sonha Ana Maria. Disponível em https://www.letras.mus.br/juca-chaves/46712/
(5) CAYMMI, Dorival. O mar. Disponível em https://www.letras.mus.br/dorival-caymmi/45583/
(6) CARVALHO, Délcio e LARA, Yvonne. Performance de Maria Betânia. Sonho Meu. Disponível em https://www.letras.mus.br/maria-bethania/47244/
(7) PALITO ORTEGA. Isso é a Felicidade. Disponível em https://www.letras.mus.br/os-incriveis/452631/
(8) VELOSO, Caetano. Chuva, suor e cerveja. Disponível em https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43870/
(9) ROBERTO CARLOS. Os seus botões. Disponível em https://www.vagalume.com.br/roberto-carlos/os-seus-botoes.html
(10) DAVID NASSER / FRANCISCO ALVES. Fim de Ano. Performance de Ivan Lins. Disponível em https://www.letras.mus.br/ivan-lins/922790/
(11) Cabelos Brancos. Performance de Francisco Petrônio. Disponível em https://www.ouvirmusica.com.br/francisco-petronio/1434216/
(12) ALVES, Ataulfo. Meus Tempos de Criança. Disponível em https://www.letras.mus.br/ataulfo-alves/84080/
(13) CORDOVIL, Herve. Rua Augusta. Performance de Ronnie Cord. Disponível em https://www.letras.mus.br/ronnie-cord/1650682/
(14) ROBERTO CARLOS. Debaixo dos caracóis de seus cabelos. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DzJXvEPzxLM
(16) Yes, Nós Temos Bananas. Performance de Ney Matogrosso. Disponível em https://www.vagalume.com.br/ney-matogrosso/yes-nos-temos-bananas.html
(17) Jingle: Campanha presidencial de 1989. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=p_rhqMZn7SE
(18) VANDRÉ, Geraldo. Pra não dizer que não falei das flores. Disponível em https://www.letras.mus.br/geraldo-vandre/46168/
(19) BUARQUE, Chico. A Banda. Disponível em https://www.letras.mus.br/chico-buarque/45099/
(20) BUARQUE, Chico. Tanto Mar. Disponível em https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/tanto-mar.html
(21) VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=WL8l8olaMmI
(22) MORAES, Vinicius de. Tarde em Itapoã. Disponível em https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/80508/
(23) ERASMO CARLOS. Coqueiro verde. Disponível em https://www.letras.mus.br/erasmo-carlos/45772/


Em aula magna com o tema ‘Felicidade no ambiente acadêmico: um compromisso para hoje!’, na manhã de sexta-feira, 29 de março, no Auditório Garapuvu (UFSC, Campus Trindade), o Prof. Wander Cleber Maria Pereira da Silva, doutor em psicologia e docente do curso de Engenharia de Software da Universidade de Brasília, sugere: conhecer a si mesmo; desenvolver autoestima; investir em relacionamentos saudáveis; saber que dinheiro é importante, mas não compra felicidade; administrar bem o tempo; ser grato; comer e descansar corretamente; não renegar as experiências desagradáveis; investir na leveza de sentimentos; relaxar integralmente, corpo e mente; escolher amar; acreditar em algo maior; e saber que a felicidade é um caminho e não uma chegada.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Memória em Chico Buarque: O Velho Francisco e Leite Derramado. Edna Domenica Merola.

            O Velho Francisco e Leite Derramado: pluralidade do eu e visibilidade do periférico.

            Para discorrer sobre O Velho Francisco e Leite Derramado, tomaremos por recurso a “relação triádica do real com o ficcional e o imaginário”, conforme o conceito de transcodificação (ISER, 2013) que será convalidado para a análise dessas duas produções de Chico Buarque sob o viés da pluralidade do eu e da visibilidade do periférico.
            O imaginário não é um mero jogo de representações, tem uma finalidade prática. O mundo representado no texto representa algo diverso de si mesmo. O mundo representado não é propriamente mundo, mas que, por efeito de um determinado fim, deve ser representado como se o fosse. O como se tem caráter remissivo. O como se compara algo existente com as consequências necessárias de um caso imaginário.
            O fictício é a tradução do imaginário na configuração concreta. A semantização é a tradução de um acontecimento experimentado na compreensão do produzido.
            O fictício oferece ao imaginário a possibilidade de que se faça presente no produto verbal do texto, na medida em que a própria língua é transgredida e enganada, para que, no engano da língua, o imaginário, como causa possibilitadora do texto, se torne presente.
            Para a arte, vale o compromisso com a reelaboração imaginária da realidade. A ficção se alimenta da realidade. A narrativa fantástica se parece com o mundo real que inclui fatos, mas também produções musicais e literárias publicadas. A ficção é fingimento, já uma notícia falsa é fraude. O texto ficcional estabelece relações diferentes com a realidade. Nesse há transgressões, excessos. Não importa o que o autor quis dizer, já que o sentido depende da materialidade da obra.
            Na transcodificação, o caráter remissivo (que compara algo existente com as consequências necessárias de um caso imaginário) diz respeito não só ao mundo como se fosse real que é representado, como também à obra de ficção tomada por fonte.
            O romance contemporâneo e a canção (ou poema musical) são textos de materialidades diferentes. Estabelecem relações com a realidade de diferentes modos e, portanto, transgressões de ordens técnicas diferentes. Como se dão as transgressões ou enganos da língua são decorrências: do uso da linguagem inerente a cada uma dessas expressões artísticas, e do fazer estético que se consuma em cada criação.
            Nesta análise dos dois trabalhos artísticos de Chico Buarque, o romance Leite Derramado comparece como transcodificação da música O Velho Francisco. A fonte considerada aqui dá-se sob o viés da performance de Monica Salmaso (2007) com o grupo Pau Brasil, do álbum Noites de Gala, Samba na Rua. Previne-se que outras performances, a exemplo da de Suzana Salles não sustentam as análises aqui contidas.
            No CD Noites de Gala, Samba na Rua, Monica Salmaso recriou canções imortalizadas por Chico Buarque, inclusive O Velho Francisco. O CD da intérprete foi produzido por Rodolfo Stroeter; a direção musical foi realizada por Mônica Salmaso e Rodolfo Stroeter. Foi gravado no estúdio MOSH dias 8, 9 e 10 de novembro e 27, 28 e 29 de dezembro de 2006. Foram engenheiros de som: Gustavo Lenza e Paulo Penov; assistentes de estúdio: Gustavo Galisi e Rui Galisi. O CD foi mixado no Rainbow Studio Oslo/Noruega por Jan Erik Kongshaug, em dois e três de março de 2007; masterizado no estúdio Classic Master por Carlos Freitas dia 15 de março de 2007.
            Ao lado do Grupo Pau Brasil, a cantora Mônica Salmaso apresentou o repertório do CD: Noites de Gala, Samba na Rua, no Teatro FECAP, em temporadas de março e de outubro de 2008. O Grupo Pau Brasil tem em sua formação o veterano Nelson Ayres (piano), Paulo Belinatti (violão), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Teco Cardoso (saxofone e flautas) e Ricardo Mosca (bateria). Dedica-se à interpretação de composições que marcam a música brasileira e a seus temas peculiares.
            Passa-se à apresentação da performance de O Velho Francisco (https://www.youtube.com/watch?v=yiPN1NANULE) cujo foco de audição sugerido é o uso de instrumentos artesanais de percussão e sopro ao lado da bateria, do piano e do violão.

Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou

Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor
Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou

Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Frequentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor

Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou
Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né?
Acho que o moço até
Nem me lavou

Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou

            Em O Velho Francisco, a narrativa do eu poético é não linear, não tece relações de causa e efeito. O eu é plural e ocupa diferentes lugares e épocas. Lugares tais como: latifúndio, hospital ou asilo, ilhas da Caraíba; e épocas: o fim do Império no Brasil, hoje, todo domingo, busca da prata no Brasil que se inicia no século XVI. Remete a sentimentos de perda, expectativa por uma visita, abandono e solidão.
            O universo vocabular refere ao centro e a uma faceta do caráter nacional brasileiro que é a do personalismo: fui eu mesmo alforriado pela mão do Imperador, tive terra, arado, cavalo e brida, campeão do mundo, frequentei palácio, (me tornei) vice-governador, fechei negócio da china, desbravei o interior, possuí mina de prata, acho que fui deputado.
            É sabido que a região das ilhas da Caraíba abriga paraísos fiscais. Os versos “Eu gerei dezoito filhas/ Me tornei navegador/ Vice-rei das ilhas/ Da Caraíba” denunciam o funcionamento de mecanismos que protegem as grandes fortunas e agravam a situação da população periférica. Já a composição musical remete a algo mais agregador e alegre do que os sentimentos expressos nas palavras do poema.
            Na performance de Monica Salmaso, há elementos (arranjo, instrumentos utilizados, alternância do solo vocal com o solo instrumental) que reforçam: – a pluralidade do eu pela diversidade e evocação das regiões brasileiras periféricas; – tornam o periférico visível.
            No objeto transcodificado tomado para análise, ou seja, no livro Leite Derramado, o caráter remissivo diz respeito não só ao mundo como se fosse real que é representado, como também à obra de ficção tomada por fonte (ou seja, a música O Velho Francisco).
            A construção do imaginário em Leite Derramado conta com um narrador que se encontra entre o limiar do sono e da vigília. Em princípio, a vigília é da ordem do real e o sonho da criação ficcional. Ambos têm suas linguagens próprias, mas que são transgredidas por meio da memória hipnagógica do narrador que a descreve assim: “O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. [...] Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.” (BUARQUE, 2009, p 8).
            A voz narrativa do romance é a de um idoso moribundo que pertence à elite brasileira decadente. O narrador personagem, nascido em 1907, é Eulálio Montenegro d’Assumpção, que conta passagens de sua vida e de seus ancestrais, de maneira fragmentada, mas que adquire força pela construção de imagens.
            A estruturação narrativa do livro lembra a da rapsódia por conter fragmentos que incluem os épicos. O discurso do narrador, em cada fragmento de suas lembranças é permeado pelas circunstâncias afetivas, culturais, socioeconômicas e históricas. No romance, a memória é entendida sob os signos da pluralidade e da diversidade: “A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto.” (BUARQUE, 2009, p. 41).
            Pode-se buscar construir uma eventual linearidade a partir de pistas precisas tais como a data de nascimento do personagem narrador, numa família da aristocracia rural, em 16/6/1907. Ou a partir de pistas genéricas como as constantes da saga dos casamentos que começa pelo dos pais do narrador que retrata os chamados casamentos por interesses e união de famílias aristocratas, em que o homem tinha toda a liberdade e a mulher tolerava sua vida dupla. Já a narrativa do casamento do próprio personagem narrador alega afinidades da pele. A filha dele tem um casamento com um italiano e duas uniões: uma com uma mulher artista plástica e outra com um homem sem profissão definida que dá um neto afrodescendente ao personagem narrador.
            Vários períodos históricos são mencionados: chegada de D João VI (1808, e do trisavô do narrador), governo de D Pedro I (1822-1831. Época do bisavô escravocrata), governo de D Pedro II (1840 – 1889. Época do avô abolicionista); governo de Campos Sales (1898; época da juventude do pai); governo de Venceslau Brás (1914-1918; época em que o pai de Eulálio presidia a comissão de assuntos agrários do Senado); a queda da bolsa de Nova York (1929, juventude do narrador), a segunda guerra mundial do século XX (1939-1945, maturidade do narrador) e a ditadura brasileira iniciada com o golpe de 1964 (época do neto do narrador que morre na militância contra a ditadura). O momento da narrativa é o da juventude do bisneto (traficante).
            As projeções da vida pessoal do narrador e das memórias de família vão formando a galeria de imagens do que se costuma chamar de retrato social. Nele transparece a pluralidade do eu, e o periférico se torna visível.
            A imagem do eu plural é construída (sob o viés da diversidade) pela evocação de diferentes personagens que compõem a genealogia de Eulálio e o eixo Rio de Janeiro e Minas Gerais.
            O eu plural é de certa forma resultante da diversidade cultural, de tal maneira que o narrador refere a si mesmo como vítima das forças culturais exercidas sobre sua própria história de vida.
            Os materiais do inconsciente afloram na voz do narrador moribundo que é refém de sua própria condição de dependência. Relatos da fuga da esposa durante o desmame da filha de ambos são repetidos insistentemente pelo narrador do romance como se fosse o refrão da música “Vida veio e me levou” (BUARQUE, 1987). Tais relatos do velho agonizante são tecidos sob a óptica do seio mau ou do seio que se nega a prover alimento e afeto (KLEIN, 1991). O abandono e a carência são marcas do periférico que se torna visível pela condição do narrador que é a de um idoso sem recursos financeiros próprios que está internado num hospital. Essa condição é apresentada literalmente no romance, em: “E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida.” (BUARQUE, 2009, p. 10).
            As imagens construídas como representações de estados hipnagógicos remontam ao inconsciente individual, no romance. Já, no poema musical, tais imagens comparecem nas representações da inconsciência do tempo histórico peculiar ao homem contemporâneo. A personalidade de filho dependente do personagem do romance e o eu lírico do poema musical que se define por identificações com personagens expoentes em algum país periférico que se acha à sombra do centro expressam proximidades entre a fonte e sua transcodificação. Pode-se concluir que tanto em O Velho Francisco, sob o viés da performance de Monica Salmaso, como na galeria de imagens da sociedade brasileira de Leite Derramado, há representações da diversidade, da dialética centro e periferia, das relações dominador e dominado pela apresentação da pluralidade do eu.


REFERÊNCIAS

BUARQUE, Chico. O Velho Francisco; música da faixa 1 do Álbum Francisco. RCA, 1987.
_______________________Vídeo clipe da música O Velho Francisco. Performance de Chico Buarque. Disponível em: https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/o-velho-francisco.html

_______________________ Leite Derramado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ISER, Wolfgan. Atos de fingir. Ed UERJ, 2013, 2ª ed.

KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

MEROLA. Palestra do Prof. Alberto sobre Leite Derramado. Disponível em https://netiativo.blogspot.com.br/2014/06/palestra-do-prof-alberto-goncalves.html

SAPO: site sobre Economia. OCDE retira três paraísos fiscais das Caraíbas. Disponível em: http://economico.sapo.pt/noticias/ocde-retira-tres-paraisos-fiscais-das-caraibas-da-lista-negra_90194.html

SALMASO, Monica e Grupo Pau Brasil. Noites de Gala - Samba Na Rua (Álbum Completo). Gravadora Biscoito Fino, 2007.
______________________________ Noites de Gala - Samba Na Rua. Álbum Completo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=3mT7ctNcunc&t=462s

__________________________________ O Velho Francisco. Performance de Monica Salmaso e Grupo Pau-brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yiPN1NANULE

quarta-feira, 13 de março de 2019

O emergente exercício pela paz. Edna Domenica Merola

Quando o ataque às Torres Gêmeas reproduziu um "game" o mundo ficou alarmado, mas a cultura estadunidense continuou belicosa.
Hoje perdi uma colega de profissão, em Suzano (SP). Uma coordenadora pedagógica faleceu  vítima de mãos armadas, no exercício de seu trabalho e junto com seus alunos.
Não a conheci, mas imagino perfeitamente como era sua vida e a vejo andando pelo prédio escolar, visitando diferentes salas ou trabalhando muito em sua própria mesa. Suas tarefas além da supervisão pedagógica do trabalho docente englobavam o atendimento à comunidade escolar e a orientação educacional. Mas uma autoridade federal achou que ela deveria estar armada para defender-se e aos alunos. (Surreal!). Senti raiva dessa autoridade e por isso repudio tal fala leiga em educação e nota zero em direitos humanos. Nossa profissão não exige escola de tiro, já que isso implicaria na perversão dos conhecimentos obtidos durante a licenciatura, o bacharelado, o mestrado, o doutorado! E não desejo que isso venha a acontecer. 
A raiva forte se traduz em choro e, em seguida, me preocupo em não deixar que a emoção escoe em vão. Volto a manifestar minha indignação (como já o fizera anteriormente à tragédia) e a expressar opinião contra o armamento civil.
No Brasil de hoje (que optou por andar de mãos dadas com os EUA de Trump), os cidadãos precisam urgentemente recobrar o amor e o respeito à vida. Torna-se imprescindível refletir sobre as causas que levaram vidas as serem cruelmente surrupiadas. 
Tal empreita exaustiva sugere ampla reflexão. Seguindo o raciocínio dedutivo, isto é, começando pelo macro, pretendo esboçar a provocação de discussão do tema à luz do modelo econômico, quer dizer, da cultura capitalista que traduzida para hoje implica em belicosidade e consequente desprezo pela vida do outro.
Escrevo com imenso pesar, mas me consolo com o dever sobrevivente de analisar o que me couber dentro de minha área de atuação e o que puder a partir de meu momento e possibilidades existenciais. Este blog tem por tema as artes (seu foco principal é o literário) e dele abstraio uma questão pertinente: os efeitos das representações da realidade sobre a realidade compactuada e sobre as vivências pessoais.
Como a tragédia sugere um amplo debate que não se esgota aqui (e nem se esgotará tão cedo em lugar algum, infelizmente), para ilustrar esse primeiro item, trago um documentário cuja qualidade é a de suscitar polêmica. Discutir altera o estado de torpor que a dor intensa provoca, é um primeiro passo que ajuda a elaborar a primeira fase de uma perda que é a de vencer a negação.
Tiros em Columbine (Michael Moore, EUA, Canadá) foi o primeiro documentário a ser selecionado para a mostra de Cannes em 46 anos. Na Mostra SP de Cinema, foi intitulado Jogando Boliche em Columbine. Apresenta os efeitos da fascinação dos americanos pela cultura bélica. Aborda o fato de que onze mil pessoas são vítimas de armas de fogo, anualmente, nos Estados Unidos. A maior parte dos moradores de pequenas cidades (tal como Littleton) tem arma em casa. Dois adolescentes pegaram as armas dos pais e mataram 14 estudantes e um professor no refeitório do colégio Columbine (em Littleton). Mostra também uma visita ao presidente da Associação Americana do Rifle (ator Charlton Heston), e um Banco (e empresa comerciante de armas) que dava arma de brinde para quem se tornasse cliente.
O filme é, portanto, uma crítica à indústria de armamento e à cultura da belicosidade. E, consequentemente, ao capitalismo selvagem que protege apenas os lucros e desdenha da pessoa humana.
Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=X5QwnQUqZeA&oref=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DX5QwnQUqZeA&has_verified=1


Tal documentário não dá conta de provocar efeitos em processos internos como as grandes obras artísticas conseguem eliciar. Nesse sentido lembro Guernica (PICASSO, 1937) que se ergue contra a violência.  
Para que este trabalho não se torne uma mortificação para mim, por não dar conta da ampla demanda de análise, vou em busca do possível. Percebo que tenho que dar conta, do sentimento de raiva e procurar, na indignação, o avesso da raiva. 
Opto, então, pelo raciocínio indutivo, parto do micro, isto é, me proponho a elaborar algo existencialmente útil a quem posso tocar com as mãos a exemplo de:
‒ uma amiga que não tem o hábito de assistir filmes; 
‒ um especialista em cinema que desdenha da produção de Michael Moore;
‒ uma pessoa violenta/dócil daquelas que gostam de dar tapa com luva de pelica, como alguém que se dirige a outra pessoa, na sua frente, e forma uma dupla de opinião contra a sua, mas sem lhe dar o direito de participar da conversa.

Em decorrência desse movimento interno e à luz do meu projeto de vida (que não tem por meta fortalecer sectarismos), elaborei o seguinte exercício de imaginação dirigida:

"Em posição de relaxamento, respire profundamente (sinta o movimento da respiração no abdômen). Pense em uma atitude que provoca que o outro se sinta rejeitado. Imagine uma tela em branco. Agora projete nela ato para gerar no outro o sentimento de aceitação. Compare como você se sente ao provocar rejeição e ao promover aceitação. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz com que o outro se sinta desdenhado. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz com que o outro se sinta valorizado. Compare como você se sente ao vitimar o outro com o seu desdém e ao oferecer valorização para o outro. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz o outro se sentir ignorado. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz com que o outro perceba laços de amizade. Compare como você se sente ao mostrar para o outro que o ignora e ao oferecer amizade. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz com que o outro se sinta isolado. Imagine nova tela em branco e pense em uma atitude que faz com que o outro se sinta pertencente ao grupo. Compare como você se sente ao mostrar para o outro que quer que ele viva isolado e como fica quando deseja que o outro pertença ao grupo.
Imagine que um número imenso de pessoas vibra pela paz no planeta. Entre nessa atmosfera. Imagine outra tela em branco. Nela, veja alguém poderoso fazendo uma ação construtora de paz. Imagine agora uma ação pela paz compatível com suas possibilidades e que beneficiará o seu entorno. Imagine agora um gesto que você irá concretizar para gerar energia de amor em seu ambiente.”

Concretize o gesto no máximo 24 horas após a mentalização.




terça-feira, 12 de março de 2019

Lavoura Arcaica: literatura&cinema. Edna Domenica Merola

       Para análise da adaptação cinematográfica (CARVALHO, 2001) do livro Lavoura Arcaica (NASSAR, 1975) tomaremos as reflexões de Linda Hutcheon acerca da adaptação de obras literárias. Tais reflexões têm por fundamentos a teoria da intertextualidade de Cristeva, a desconstrução de Derrida e a rejeição de Foucault à ideia de subjetividade unificada.
            Segundo a autora, adaptação é uma forma de transcodificação de um sistema de comunicação para outro, na qual as mudanças ocorrem entre mídias, gêneros e culturas.
            Em seu estudo sobre adaptação, Hutcheon tem por objetivo: desafiar o olhar depreciativo sobre a adaptação. Pretende desmistificar a hierarquização (na qual a literatura é maior e as adaptações menores), a iconofobia (desconfiança do visual) e a logofilia (sacralização da palavra). Tal objetivo será tomado nesta análise do livro Lavoura Arcaica (NASSAR, 1975) e sua transcodificação.
            Segundo Alceu Amoroso Lima, o livro aqui referido é uma “novela trágica [...] numa atmosfera bem brasileira, mas dominada por um sopro universal da tradição clássica mediterrânea. Drama tenebroso, em estilo incisivo, nunca palavroso ou decorativo, da eterna luta entre a liberdade e a tradição, sob a égide do tempo. Livro impressionante, magistral.”. (NASSAR, 2017, contracapa do livro).
            Já a transcodificação em pauta é um filme brasileiro de 2001, drama dirigido por Luiz Fernando Carvalho e que, em 2015, foi considerado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
            A trama de Lavoura Arcaica trata da narrativa feita do ponto de vista do personagem André sobre a vida de sua família de imigrantes estrangeiros que se isola para manter as tradições. A cultura patriarcal mostra o pai como símbolo da Lei, capaz de executar, com uma foice, a própria filha que dança freneticamente e usa enfeites que André havia conseguido com uma prostituta.
            O livro tem trinta capítulos. Vários deles iniciados por referência a uma parte do corpo. Há remissão aos olhos (sentido da visão) nas linhas iniciais dos capítulos 1, 2, 3,7, 10, 11, 12, 14, 22. As linhas iniciais do capítulo 9 fazem remissão aos “rostos coalhados, [...] adolescentes em volta da mesa” que o narrador vê nos outros personagens (irmãos adolescentes). No capítulo 16, há menção a “nossos narizes obscenos”. O capítulo 17 faz menção ao sentido da audição e à loucura. Já as menções ao sentido do tato, a exemplo do uso dos substantivos afago(s) e do verbo correlato é frequente e pulverizada na obra.
            A densidade da obra literária em pauta é fruto de sua vocação estética neobarroca. Os parágrafos exageradamente longos imprimem exaustão ao processo de leitura. Em contrapartida, na consumação da tragédia (o assassinato de Ana) parágrafos curtos intercalam vozes até então caladas.
            Segundo Ismail Xavier, “no filme, há a forte presença da voz over do narrador, que transpõe passagens do texto de Raduan [...] a palavra deve interagir com a mise-en-scène; imagem e som compõem uma nova dinâmica, que define a originalidade das escolhas do cineasta e sua concepção da tragédia familiar.” (XAVIER, 2011, p 10).
            O discurso do pai é repetitivo e o de André é inventivo a ponto de provocar rupturas. A duração (velocidade) do filme é antirrealista, nele tudo é reminiscência materializada na fotografia.
            Na leitura do livro e na apreciação do filme percebem-se vozes distintas de dois andrés que remontam às oposições: continuidade X descontinuidade do enunciador; sensibilidade X assepsia da ordem familiar:
No romance, a “situação épica” do narrador permanece indefinida, restando a premissa de que ele está num futuro não imediato face ao ocorrido. Há a fala do André que vive a experiência, está “em cena” a cada atualização do passado, e o discurso do André que narra à distância, numa modulação de tons que não fere a unidade do texto — todo ele sancionado pelo seu nome, embora a diferença entre o ato de viver o drama e o de evocá-lo post-factum problematize a continuidade-identidade desse “eu” como foco da enunciação. Há um dialogismo de fundo, próprio ao romance como gênero, pelo qual se diz que são múltiplas as vozes (valores, perspectivas, sujeitos) que ganham expressão direta ou indireta na narrativa, mesmo quando a fatura indica uma única voz a conduzir o relato. O narrador, pelos vocábulos e pela sintaxe, dá um tom solene ao cotidiano, consagra o mundo dos sentidos e sugere a contaminação recíproca dos opostos, tudo conforme uma visão assumida desde a adolescência. Nesse sentido, torna estilo de exposição uma sensibilidade construída lá atrás quando, em pleno vigor, entreviu a possibilidade de compor uma religião da natureza, trazendo à luz a esfera da experiência afeta ao mundo das pulsões e da seiva natural, esfera recalcada pelo teor unilateral e pela assepsia da ordem familiar. (XAVIER, 2011, p 15-16).
            As diferentes vozes narrativas tomam corpo nas diferentes casas: a casa em que a família habita e a casa “velha” onde habitam os subterrâneos das memórias de André.
            A casa habitada comparece em várias cenas, inclusive como cenário da primeira cena do filme, mas capítulo 24 do livro. Na sala de refeições (e dos sermões do pai), os membros da família estão sentados à grande mesa. O pai senta à cabeceira, os filhos mais velhos sentam ao lado do pai, por ordem de idade, primeiro Pedro (o mais velho) e depois Rosa, Zuleika e Uda. A mãe senta à esquerda do marido, e os filhos mais novos – André, Ana e Lula – sentam ao lado da mãe. Na cabeceira oposta à do pai há a cadeira que fora ocupada pelo avô, durante sua vida, e sobre a qual se pode ler: “seria exagero dizer que sua cadeira ficou vazia” (NASSAR, 2017, p 155).
            Outra cena relevante que tem por cenário a sala de refeições é aquela que faz a tomada exclusivamente no plano medial dos corpos dos atores/personagens e das cadeiras das mesas, antes que nelas tomem seus lugares não só para se alimentarem, mas para consolidar suas posições hierárquicas perante o clã.
            A casa “velha” ou em ruínas privilegia o discurso “dos subterrâneos da memória”. É o local em que André narra seu desejo por sua irmã Ana. Nessa cena do filme, a tomada de câmara insiste no plano baixo: quer nas botas deixadas sobre o chão, quer nos pés descalços de André. A essa cena intercala-se aquela em que André, na infância liberta uma pomba que comia milho no alçapão. O personagem criança é mostrado de forma solar, com tomadas de câmara do tipo aérea.
            O jogo de claro e escuro (ou de solar e subterrâneo) do filme espelham a tessitura neobarroca do livro.
            Em suma, a adaptação do “impressionante” e “magistral” livro Lavoura Arcaica para o laureado filme homônimo comprova que se deve eliminar o olhar depreciativo sobre a transcodificação, denunciar a iconofobia e a logofilia para desmistificar a hierarquização entre literatura e cinema.


REFERÊNCIAS


CARVALHO, Luiz Fernando. Lavoura Arcaica. Filme. 2001. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=FnibQvMlq-l

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Ed UFSC, 2011, 2ª ed.

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. 2017. Companhia das Letras. 3ª edição, 35ª impressão.

XAVIER, Ismail. A geometria barroca do destino. 2011. Significação, número 36.